12/02/2026 19:41:41

Mundo
12/02/2026 14:00:00

Ascensão da Emigração na Nova Zelândia: Um Sinal de Mudança Econômica

Número recorde de residentes deixando o país revela tendências migratórias e desafios futuros

Ascensão da Emigração na Nova Zelândia: Um Sinal de Mudança Econômica

Nos últimos doze meses, a Nova Zelândia testemunhou a saída de mais de 70 mil cidadãos, um fenômeno que representa quase 1,4% da população total de aproximadamente 5,1 milhões de habitantes dessa nação insular situada no sudoeste do Oceano Pacífico.

Embora o percentual pareça pequeno, sua magnitude causa preocupação nacional, pois marca o maior fluxo de emigração registrado em décadas, principalmente com destino à Austrália, país que historicamente recebe a maior parcela dos emigrantes neozelandeses.

Tradicionalmente, os residentes migravam para países distantes como Europa ou Estados Unidos, mas o cenário atual revela uma preferência por voos mais curtos e pelo país vizinho, onde a economia oferece melhores oportunidades. Essa mudança de padrão, embora não seja nova, tem se intensificado, especialmente nos últimos dois anos, refletindo uma crise econômica, um mercado de trabalho fragilizado e uma sensação de estagnação.

O diferencial dessa fase é a persistência do movimento migratório, que continua forte sem sinais de diminuição, diferentemente do que ocorreu durante a crise financeira global de 2011-2012, quando os saldos migratórios negativos também atingiram cerca de 40 mil pessoas, porém de forma temporária.

Segundo o professor Paul Spoonley, da Universidade Massey, a quantidade de cidadãos emigrando atualmente é preocupante, especialmente porque há mais estrangeiros deixando o país do que entrando, reforçando uma tendência sem previsão de desaceleração. Dados oficiais indicam que a maior parte dos migrantes se dirige à Austrália, onde cerca de 700 mil neozelandeses vivem atualmente — aproximadamente 13% da população, incluindo também 100 mil indivíduos com cidadania da Nova Zelândia, mas nascidos na Austrália.

A facilidade de conexão social e familiar, além de incentivos trabalhistas, tornam o país vizinho altamente atrativo. Para muitos, a busca por salários mais elevados e melhores condições de emprego é o principal motivo para a mudança, embora o mercado australiano ofereça também benefícios adicionais, como pagamento de horas extras, bônus por trabalho em feriados e moradia subsidiada, particularmente no setor de saúde, segurança, mineração e construção civil.

Dados da plataforma Seek revelam que um enfermeiro registrado na Austrália pode ganhar entre 85 mil e 90 mil dólares australianos anuais (equivalente a cerca de R$ 311 mil a R$ 329 mil). No último ano, mais de 10 mil enfermeiros neozelandeses buscaram oportunidades profissionais no país.

Outro setor que tem atraído profissionais é a segurança pública. Entre janeiro de 2023 e abril de 2025, 212 agentes da polícia da Nova Zelândia deixaram suas funções para atuar na Austrália, onde salários podem ultrapassar US$ 75 mil anuais, além de oferecer moradia gratuita ou subsídios.

Setores como mineração e construção civil também têm observado aumento na saída de trabalhadores, impulsionados pelo crescimento superior a 2% da economia australiana no último ano, que mantém uma demanda constante por mão de obra especializada.

Além do perfil tradicional, que envolvia jovens recém-formados na fase inicial de suas carreiras, atualmente há um aumento de profissionais na faixa dos 20 aos 30 anos, indicando que pessoas que já possuem experiência no mercado de trabalho estão optando por emigrar, muitas sem planos claros de retorno. Segundo Spoonley, aproximadamente 38% dos emigrantes são cidadãos neozelandeses que não nasceram no país, incluindo aposentados e migrantes de comunidades como o Reino Unido.

Essa tendência também reflete uma realidade demográfica, pois os cerca de 800 mil neozelandeses que vivem no exterior, incluindo seus filhos, representam uma das maiores diásporas da OCDE em relação ao tamanho da população local. Spoonley critica o governo de Wellington por não aproveitar essa riqueza de experiência e contatos internacionais, o que pode comprometer o desenvolvimento econômico a longo prazo.

Especialistas alertam que a contínua saída de trabalhadores qualificados pode ocasionar perdas de capital humano, reduzir a produtividade e frear o crescimento econômico da Nova Zelândia. Apesar das propostas governamentais de incentivos fiscais e mudanças regulatórias para reter talentos, esses esforços parecem insuficientes diante das vantagens comparativas oferecidas por países como a Austrália, com salários mais altos e melhores condições de trabalho.

Em resumo, o êxodo de jovens e profissionais experientes demonstra uma crise que desafia o país a buscar estratégias eficazes de retenção, enquanto enfrenta uma economia fragilizada e uma competitividade reduzida no cenário internacional.