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Economia
11/02/2026 10:00:00

Implicações Públicas de Investimentos Questionáveis no Banco Master e seus Efeitos no Sistema Financeiro Nacional

Recursos públicos podem ser utilizados para cobrir perdas decorrentes de negócios com a instituição financeira em crise, envolvendo fundos de previdência e bancos estaduais

Implicações Públicas de Investimentos Questionáveis no Banco Master e seus Efeitos no Sistema Financeiro Nacional

A liquidação do Banco Master e as investigações que envolvem seu principal controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro, não despertaram apenas inquietações entre os círculos econômicos e políticos do Brasil.

Enquanto isso, uma parcela significativa de cidadãos brasileiros, afastada dos centros de poder como a Avenida Faria Lima em São Paulo ou a Esplanada dos Ministérios em Brasília, enfrenta o risco de suportar prejuízos relacionados às operações feitas com a instituição financeira em questão.

O Banco Master ganhou notoriedade em novembro do ano passado, após ser liquidado e ter Vorcaro detido na primeira fase da operação conhecida como Compliance Zero, sob suspeita de crimes contra o sistema financeiro, acusação que sua defesa nega veementemente.

As consequências dessa crise financeira, agravadas pelas liquidações do próprio Master e do Will Bank — que operava sob sua gestão —, resultaram em um déficit estimado em cerca de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Este órgão privado funciona como uma espécie de seguro, garantindo reembolsos de até R$ 250 mil por investimento em caso de falência de uma instituição financeira.

Como o FGC é financiado por contribuições das próprias instituições bancárias, não há previsão de recursos públicos para sanar esse buraco financeiro.

Apesar disso, fundos públicos, aposentados, pensionistas e servidores de Estados como Amazonas, Amapá e Rio de Janeiro podem acabar assumindo o prejuízo de maneira indireta, devido às operações realizadas pelo Banco Master.

Grande parte desse risco resulta de negócios feitos em duas principais frentes. A primeira consiste na aplicação de fundos de previdência privada, que investiram em títulos emitidos pelo banco, com a promessa de retornos elevados no futuro.

A segunda envolve operações do Banco de Brasília (BRB), controlado pelo Governo do Distrito Federal, que comprou carteiras de crédito do Master, atualmente sob investigação, o que pode gerar perdas financeiras consideráveis.

Estimativas do Banco Central indicam que o BRB pode precisar de uma injeção de até R$ 5,5 bilhões para cobrir eventuais prejuízos.

Ainda não há uma confirmação definitiva de perdas consolidadas, uma vez que não se sabe se o banco liquidado manterá sua capacidade de honrar os investimentos feitos por fundos de previdência em títulos emitidos por ele.

Especialistas alertam que fundos de pensão poderão encontrar dificuldades para recuperar seus investimentos caso o banco não consiga cumprir suas obrigações. Além disso, ainda não se sabe se o BRB necessitará de recursos públicos para equilibrar suas contas, mesmo o banco admitindo essa possibilidade na última semana.

Segundo economistas ouvidos pela BBC News Brasil, se os prejuízos se concretizarem, o pagamento deles provavelmente será feito com recursos públicos, seja por meio de aumentos de impostos ou cortes em outras áreas orçamentárias.

Quanto aos fundos de pensão, perdas podem significar a necessidade de os servidores ativos ou aposentados aumentarem suas contribuições, ou que o governo estadual ou municipal precise destinar recursos de outras fontes para cobrir o dano.

Em caso de necessidade, o próprio Banco de Brasília pode precisar de uma injeção de capital proveniente do governo do Distrito Federal, que é seu maior acionista.

Essa operação, no entanto, depende de autorização da Câmara Legislativa do DF, onde o governador Ibaneis Rocha (MDB) já enfrenta críticas por seus encontros com Vorcaro, ocorridos antes da tentativa de aquisição do banco pelo próprio BRB.

A assessoria do BRB declarou à BBC News Brasil que ainda não é possível determinar o valor exato do prejuízo, mas que o banco está adotando diversas medidas legais e administrativas para proteger seus interesses e minimizar os impactos, incluindo a revisão de fundos de investimento, garantias e carteiras de crédito.

Além disso, o banco enviou um plano ao Banco Central para recompor sua estrutura de capital dentro de um período de 180 dias.

A defesa de Vorcaro e do Banco Master também optou por não emitir comentários oficiais sobre o caso.

No cenário mais amplo, o prejuízo potencial também afeta os fundos de previdência privada do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, que juntos investiram aproximadamente R$ 1,42 bilhão em títulos do Banco Master.

O governo do Amapá comunicou que a autarquia responsável pela gestão dos fundos de pensão estadual, a Amapá Previdência, se sente prejudicada pelos atos ilícitos do banco e busca reparação judicial.

Eles informaram ainda que o investimento na instituição equivale a 4,7% de todo o patrimônio do fundo.

Os governos do Rio de Janeiro e de seu fundo de previdência, Rioprevidência, destacaram que, na época dos investimentos, o Banco Master possuía autorização de funcionamento e era avaliado por agências internacionais, como a Fitch Ratings, condição obrigatória para a mitigação de riscos.

Essas entidades reforçaram que os investimentos representam 7,41% do patrimônio da instituição e instauraram uma sindicância interna para averiguar os efeitos das operações no banco.

O Amazonas, por sua vez, não respondeu às questões enviadas pela reportagem.

A defesa do Banco Master e de Vorcaro declarou que não irá se manifestar sobre o caso.

Além do impacto nos fundos de pensão estaduais, a crise também revela que a operação com clientes e investidores privados, incluindo a venda de carteiras de crédito e títulos de renda fixa, ocorreu em condições que podem não garantir a segurança financeira dos envolvidos.

A investigação mais recente também aponta que Vorcaro teria participado de operações fraudulentas relacionadas a créditos de aproximadamente R$ 12,2 bilhões com o banco ligado ao governo do Distrito Federal, o que reforça as suspeitas de irregularidades.

A Procuradoria do Distrito Federal e a Polícia Federal estão aprofundando as investigações, buscando compreender a extensão das transações ilegais e o papel de Vorcaro nessas operações.

Em relação ao BRB, o banco afirmou que busca minimizar os riscos e que possíveis prejuízos podem ser cobertos pelo maior acionista, o governo do Distrito Federal, que já possui planos de capital de reserva para reforçar sua estrutura financeira, caso necessário.

Ainda assim, a possibilidade de um aporte público depende de deliberação política e autorização da câmara legislativa local, que também analisa eventuais ligações de Vorcaro com o governador Ibaneis Rocha.

O cenário revela uma complexa rede de interesses públicos e privados, cuja resolução pode envolver medidas que impactam diretamente os cofres públicos e a qualidade dos serviços oferecidos à população.