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Religião
08/02/2026 20:00:00

'A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz escritor espanhol

'A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz escritor espanhol

O Vaticano fez a Javier Cercas uma proposta difícil de recusar: abrir suas portas por completo para que ele pudesse circular, perguntar e escrever com total liberdade, acompanhando o papa Francisco em uma viagem para um dos pontos mais distantes do planeta. Diante de um convite assim, como dizer não?

Cercas aceitou atravessar aqueles corredores com a curiosidade de quem perdeu a fé ainda na adolescência, mas também movido por um sentimento mais íntimo: o afeto de um filho que procurava um último consolo para a mãe, já idosa e doente.

Dessa experiência nasceu o livro O Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), obra que mistura lembranças pessoais com a crônica do percurso feito ao lado do pontífice.

Para Cercas, a narrativa tem a estrutura de um romance policial, “como são, no fundo, todos os romances importantes para mim, a começar por Dom Quixote, porque em todos eles existe um enigma e alguém tentando decifrá-lo”.

Só que o mistério aqui não é um crime, nem algo comum a thrillers tradicionais. O centro do livro é um dos pilares do cristianismo: a ressurreição da carne e a promessa da vida eterna.

“Vivemos em um mundo sem Deus”, afirma o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante (ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Para ele, essa ausência abriu um vazio que a sociedade tenta preencher com substitutos, mas nunca de forma completa, já que a religião por séculos ofereceu um relato total, capaz de dar sentido ao mundo.

A entrevista foi concedida à BBC News Mundo durante o Hay Festival Cartagena, na Colômbia, realizado entre 29 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026.

Ao ser questionado se a religião estaria “na moda”, Cercas diz duvidar. Reconhece que há sinais interessantes, como o seu livro e até um álbum recente da cantora Rosalía, mas considera precipitado tratar isso como tendência. Para ele, cada país vive um contexto diferente: a Europa já não é o centro do cristianismo, o catolicismo segue forte na América Latina, mas está diminuindo, e o foco do crescimento agora estaria na África. Ainda assim, isso não significa que a religião tenha voltado ao centro do mundo contemporâneo.

O que o interessou, explica, foi entender o que fazemos hoje com a religião em um cenário no qual, na Europa e em boa parte do Ocidente, ainda existam crentes, mas o mundo já não se organiza a partir de Deus. Segundo ele, algo que por séculos foi essencial para dar sentido ao mundo perdeu força, e a pergunta que resta é: o que sobra disso, e como o Vaticano lida com essa realidade?

Quando a BBC questiona se a religião teria sido substituída por algo, Cercas responde que nada conseguiu ocupar plenamente esse lugar. Para ele, houve apenas substituições parciais. Ele lembra que, durante a Idade Média, as pessoas viviam dentro de um universo ordenado, em que Deus explicava tudo. Esse modelo teria permanecido, com variações, até o fim do século 19, quando Nietzsche escreveu a famosa passagem do “louco” anunciando que Deus havia morrido — e que os próprios homens o haviam matado. A partir dali, segundo Cercas, o grande relato religioso ruiu.

Houve tentativas de substituir essa explicação global, como o marxismo e a psicanálise, mas nenhuma delas teria conseguido cumprir o papel que a religião ocupava. Cercas cita o filósofo Jean-François Lyotard para dizer que a condição pós-moderna se define justamente pela ausência de grandes relatos. Cada um busca sentido como pode: em religiões alternativas, na arte, na política, no consumo. E, em muitos casos, surge um ressentimento, uma espécie de saudade de uma verdade total, o que ele chama, seguindo George Steiner, de “nostalgia do absoluto”.

Cercas diz que esse sentimento aparece no fim do livro, ainda que ele não tenha percebido isso desde o início. O protagonista chega a se definir como “o louco sem Deus”, numa referência direta ao louco de Nietzsche, alguém que sente falta dessa explicação universal. Para ele, é possível que muita gente viva essa mesma falta.

Ao falar do “nó na garganta” que atravessa o livro, Cercas explica que descobriu isso ainda adolescente, quando perdeu a fé e sentiu a angústia deixada por Deus. Ele conta que tentou preencher esse vazio com a literatura, o que hoje considera um erro, porque a literatura não dá certezas nem respostas prontas, e sim inquietação. Mesmo assim, a própria busca literária acabou funcionando como uma espécie de substituto pessoal para a religião, algo que ele diz não ser incomum. Ele lembra que, no fim do século 19, escritores como Flaubert chegaram a se definir como “sacerdotes da arte”, enxergando a criação artística como um tipo de sacerdócio.

Na entrevista, Cercas também comenta o que chama de “constantinismo”, a aliança entre Igreja e Estado, e afirma que isso foi desastroso para o cristianismo. Ele diz que, na visão de Francisco, o constantinismo deveria ser combatido, e acredita que o mesmo acontece com o atual papa, Leão 14. Segundo Cercas, o problema é que outras igrejas e setores políticos, especialmente ligados à extrema-direita no Ocidente, seguem utilizando a religião como ferramenta para seus projetos. Para ele, isso é mortal, porque o cristianismo não deveria estar associado ao poder, e sim funcionar como contrapoder.

Ao aprofundar essa ideia, Cercas afirma que Jesus Cristo foi uma figura perigosa, subversiva e revolucionária. Ele lembra frases atribuídas a Cristo, como “não vim trazer a paz, mas a espada”, e ressalta que a defesa da igualdade, em uma época marcada pela escravidão, era algo profundamente radical. Na visão do escritor, Cristo não caminhava com poderosos nem com o dinheiro, mas com indigentes, prostitutas e marginalizados. Para ele, esse seria o cristianismo original, enquanto o que se consolidou ao longo da história foi uma deformação: um cristianismo ligado ao poder, clerical, com uma estrutura que coloca o clero acima dos fiéis.

É nesse ponto que Cercas faz a afirmação mais dura: para ele, em grande parte, a história da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo. Ele cita uma frase do escritor francês Charles Péguy, segundo a qual “o que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito burguês”.

Ao ser perguntado sobre o clericalismo, Cercas afirma que Francisco era explicitamente anticlerical, e que combateu essa mentalidade até o fim. O clericalismo, diz ele, é a ideia de que o sacerdote está acima dos demais fiéis. Francisco, segundo Cercas, chamava isso de “câncer da Igreja” e defendia que o sacerdote deveria estar diante do povo para guiar, dentro do povo porque faz parte dele, e atrás para ajudar quem não consegue acompanhar, mas nunca acima. Para Cercas, muitos dos males da Igreja vêm justamente desse lugar de superioridade, e ele cita os abusos sexuais como exemplo de abuso de poder. Ele acredita que uma parte da Igreja ainda mantém traços clericais, mas diz que isso é devastador para o futuro da instituição.

Sobre o novo papa, Cercas afirma que ainda é cedo para conclusões definitivas, mas acredita que ele também seja anticlerical. Segundo ele, Francisco chegou como um vendaval, disposto a provocar mudanças rápidas e “fazer bagunça”, como o próprio pontífice dizia. Já Leão 14 teria um estilo mais suave, prudente, clássico e tradicional, com o objetivo de acalmar o ambiente interno e reduzir divisões deixadas pelo papado anterior.

Cercas afirma que o caminho geral continua sendo o mesmo desde o Concílio Vaticano 2º: um retorno ao cristianismo de Cristo, com alguns papas avançando mais e outros menos. Para ele, Francisco foi o que levou esse projeto mais longe. Já o novo papa, embora não tenha promovido grandes mudanças imediatas, teria uma característica que o torna singular: além de conhecer a cúria, é um missionário, algo que Cercas considera fundamental para encarnar o cristianismo radical.

Ele menciona os missionários retratados no livro, que atuam em condições extremas, com temperaturas de 50 graus negativos, não para repetir o modelo antigo de evangelização, mas para estar ao lado dos pobres, dos abandonados e dos que não têm nada — exatamente como, na visão dele, fazia Jesus.

Quando fala sobre suas expectativas antes de entrar no Vaticano, Cercas diz que precisou lutar contra seus próprios preconceitos. Ele afirma que, em países de tradição cristã como a Espanha e os latino-americanos, todos acham que já sabem tudo sobre a Igreja. No entanto, nada do que ele imaginava se confirmou. O acesso dado pelo Vaticano o surpreendeu desde o início, e ele afirma que o final do livro, se ele fosse crente, poderia ser chamado de “pequeno milagre”.

Cercas também conta que escolheu um tom humorístico, porque não consegue conceber literatura sem humor. Ele brinca dizendo que esperava encontrar clichês e lendas, como orgias na Capela Sistina, sacrifícios humanos ou segredos fantásticos escondidos em arquivos, mas concluiu que esses mistérios são apenas isso: invenções repetidas ao longo do tempo.

Ao falar da fé, Cercas diz que ela pode ser vista como um superpoder, porque dá serenidade e força. Ele conta que passou do ateísmo ao agnosticismo, influenciado por Hannah Arendt, que dizia que o ateu seria alguém que afirma saber aquilo que não pode ser conhecido. Para ele, tanto a existência quanto a inexistência de Deus são impossíveis de provar, e por isso o agnosticismo seria a postura mais racional.

Mesmo assim, Cercas admite que sentiu inveja dos crentes autênticos, como sua mãe. Ele afirma que a fé dela parecia mais firme do que a do próprio papa Francisco, e que a serenidade proporcionada pela crença permitia que ela fizesse coisas que ele jamais conseguiria. Ele reforça que a fé não é uma escolha voluntária: não dá para decidir acreditar do mesmo modo que não dá para decidir ser feliz. E cita Flannery O’Connor ao dizer que a fé verdadeira é mais difícil do que a ausência de fé.

A entrevista também aborda a relação entre religião e literatura. Cercas diz que a Bíblia é um texto literário impressionante, mesmo para quem não é religioso, e que sua influência sobre a tradição literária é inegável. Porém, afirma que a Igreja enfrenta hoje um problema de linguagem: seu discurso envelheceu, perdeu força e muitas vezes se tornou hermético, pouco atraente e incompreensível. Ele contrasta isso com a figura de Jesus, que atraía não apenas pelo que dizia, mas pelo que fazia. Para Cercas, Cristo seduzia pelas ações e por uma linguagem totalmente nova, tão poderosa que os evangelhos registraram suas palavras como se fossem ouro.

Ele também lembra que, por séculos, religião e arte estiveram profundamente conectadas. A arquitetura, a música e a pintura ajudavam a conduzir as pessoas ao sagrado, como quando alguém entra em uma catedral e se sente pequeno diante de um espaço dedicado a Deus. Com humor, ele relembra um trecho do livro em que descreve ouvir Bach no metrô de Barcelona e imaginar que o teto do vagão se abriria para Deus aparecer e provar que existe.

Cercas cita Emil Cioran, que dizia que “Deus não sabe quantos crentes deve a Bach”, e afirma que é verdade: ouvir obras como o Magnificat pode, por um instante, dar a sensação de que Deus existe. Ele reconhece que a Igreja Católica foi decisiva na formação do Ocidente em praticamente todos os campos — político, artístico, literário — e diz que isso muitas vezes é ignorado. Ele se pergunta como, sendo ateu e anticlerical, aceitou escrever esse livro, e responde que seria impossível recusar a chance de entrar numa instituição que atravessou dois mil anos e moldou tanto o mundo.

Para ele, a Igreja é uma instituição estranha, incomum, e o que existe no centro dela é algo que ainda impressiona: a promessa da ressurreição da carne e da vida eterna. Cercas considera isso extraordinário, especialmente porque seduziu milhões de pessoas, inclusive algumas das mentes mais brilhantes da história.

Quando a BBC pergunta qual seria o superpoder da Igreja, Cercas diz não saber. Se fosse crente, chamaria de milagre. Mas ele afirma que existe algo muito potente no cristianismo: Cristo não foi apenas um revolucionário social, mas também metafísico, porque se rebelou contra a morte. Essa rebelião, segundo ele, é o coração do cristianismo. Cercas admite ter simpatia por essa ideia, porque a morte o incomoda profundamente, e ele diz, sem rodeios, que não quer morrer.

Na visão dele, o cristianismo oferece uma promessa imensa: a de que a morte não é o fim. Ele cita Espinosa, ao lembrar que todo ser quer persistir em sua existência, e diz que essa vontade define os humanos. O cristianismo, segundo Cercas, fornece uma resposta a esse desejo: a vida eterna.

A mãe do escritor ocupa o centro emocional do livro. Cercas conta que, ao receber a proposta do Vaticano, pensou imediatamente nela. Ela era profundamente católica e, após a morte do marido, dizia que iria reencontrá-lo depois da morte. Cercas explica que essa esperança não era apenas pessoal: está no coração do cristianismo, embora muitos cristãos pareçam ter esquecido.

Ele resume a estrutura do livro como a história de um “louco sem Deus” — ele próprio — que vai em busca do “louco de Deus”, Francisco, e viaja com ele até a Mongólia para fazer a pergunta essencial: sua mãe irá ou não reencontrar seu pai após a morte? Para Cercas, esse é um dos grandes enigmas da civilização ocidental.

Embora o papa Francisco pareça ser o protagonista, Cercas afirma que a figura central do livro é sua mãe, assim como seu pai havia sido em Anatomia de um Instante. Ele diz que ninguém o influenciou mais do que seus pais, e que falar deles é também falar de si mesmo. Para ele, investigar os pais é investigar o próprio ser humano, e isso, em última instância, é o que a literatura faz.

No fim da entrevista, ao ser perguntado se acredita que Francisco esteja agora conversando com sua mãe, Cercas volta ao seu ponto central: ele não é crente. Ele afirma que a ressurreição e a vida eterna não significam reencontros idênticos aos da vida terrena, como se existisse um “Zoom no céu”. Para ele, a ideia de transcendência pode assumir outras formas.

Cercas cita a lei física segundo a qual a matéria não se cria nem se destrói, apenas se transforma. Ele diz que, mesmo com os pais mortos, eles continuam nele: as células deles se transformaram nas dele, e isso seria uma forma real e verificável de transcendência. Ele lembra uma frase de Miguel de Unamuno, segundo a qual “a imortalidade são os filhos”, e afirma que algo disso é verdadeiro, porque seus pais seguem vivos nele, em gestos, palavras e até no rosto que vê no espelho.

Ele também diz que a literatura oferece uma transcendência própria: quando alguém lê Cervantes, por exemplo, o escritor morto há séculos volta a estar presente. Cercas insiste, porém, que o que os seres humanos realmente não querem é desaparecer. Ele admite que não gosta da morte e não acredita nas pessoas que dizem aceitar tranquilamente o fim quando ele chegar. Para ele, morrer parece injusto, horrível e absurdo, e ele preferiria continuar vivendo e conversando, porque isso é mais divertido do que desaparecer para sempre.