A participação da escola de samba Acadêmicos de Niterói no desfile do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí promete ser um dos momentos mais polêmicos do Carnaval carioca. A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feita em um período eleitoral, rapidamente reacendeu discussões sobre polarização política, o emprego de manifestações culturais para fins políticos e a legislação eleitoral vigente.
Na semana passada, o governo federal confirmou um apoio financeiro de R$ 12 milhões destinado às 12 principais escolas do Carnaval do Rio de Janeiro, incluindo as transferências feitas pelo Executivo. Cada escola receberá R$ 1 milhão como incentivo para promover o turismo na cidade durante as festividades. Especialistas do setor celebraram o aporte, considerando-o uma garantia para a realização do evento.
No desfile, a Acadêmicos de Niterói apresentará o enredo intitulado "Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o trabalhador do Brasil". O tema foi escolhido em julho de 2024, e o samba-enredo foi divulgado em 21 de setembro de 2025.
A escola define Lula como "o político de maior sucesso de sua geração", ressaltando sua trajetória desde operário e líder sindical até suas três vitórias nas eleições presidenciais. O enredo destaca que, apesar da natureza tradicional de homenagear personalidades no Carnaval, a escolha de Lula levanta questionamentos.
Para alguns, a combinação de homenagem pública, financiamento público e contexto político pode configurar abuso de poder e promover vantagens eleitorais, especialmente em um período em que o próprio presidente tenta organizar sua presença na Sapucaí, embora sua participação ainda não tenha sido confirmada. Especialistas ouvidos pelo Correio ressaltam que, na prática, penalidades tendem a recair mais sobre as escolas do que sobre os candidatos, salvo demonstração de ligação direta ou coordenação.
Outro aspecto que desperta preocupações refere-se ao uso de recursos públicos na iniciativa. A Acadêmicos de Niterói recebeu recursos que totalizam R$ 7,15 milhões, incluindo R$ 1 milhão da Embratur e do Ministério da Cultura, além de R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói e R$ 2,15 milhões da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Apesar de essas transferências serem consideradas institucionais, o uso dos valores como argumento em ações judiciais contra Lula ou o PT, alegando potencial benefício eleitoral, não pode ser descartado. Além disso, um acordo de cooperação foi firmado entre a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio, mediado pelo Ministério da Cultura. Cassius Rosa, secretário-executivo adjunto do MinC, destacou a importância estratégica dessas transferências, afirmando que o apoio reafirma o papel do Carnaval como vitrine internacional do Brasil e como motor de desenvolvimento econômico da cadeia produtiva.
Para o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, o investimento não é só uma estratégia de apoio cultural, mas também uma ação de promoção internacional. Segundo ele, o Carnaval do Rio serve como uma oportunidade para fortalecer a imagem do Brasil no exterior, estimular o turismo e gerar empregos. Gabriel David, presidente da Liesa, reforça que o termo de cooperação oferece segurança às escolas e reconhece o Carnaval como uma indústria criativa que movimenta a economia, cria oportunidades de trabalho e projeta a cidade globalmente.
Os dados do evento demonstram sua relevância econômica: turistas de mais de 160 países representam 12% do público, com maior participação da Argentina (28,7%) e dos Estados Unidos (9%).
Em 2025, os gastos com hospedagem, alimentação e lazer relacionados ao Carnaval movimentaram aproximadamente R$ 8,8 bilhões no estado do Rio, sendo que a estimativa geral de impacto financeiro do evento ultrapassa R$ 6 bilhões.