03/02/2026 22:48:33

Mundo
21/01/2026 04:00:00

Cenários de Resposta dos EUA às Manifestações no Irã: Estratégias Possíveis

Análise das alternativas militares e diplomáticas diante da crise iraniana

Cenários de Resposta dos EUA às Manifestações no Irã: Estratégias Possíveis

Nos últimos dias, Donald Trump tem discutido publicamente possíveis ações envolvendo o Irã, diante de uma repressão severa contra manifestantes no país. Embora tenha anunciado a intenção de implementar "medidas bastante contundentes", depois recuou ao afirmar que recebeu informações de "fontes altamente confiáveis" do lado iraniano, alegando que "os assassinatos no Irã estão cessando".

Essa postura imprevisível caracteriza Trump, mas o cenário tenso na região, com um porta-aviões americano direcionado ao Oriente Médio, notícias de retirada de militares de bases estratégicas e o fechamento temporário do espaço aéreo iraniano na semana passada, sugere que um possível ataque já está em pauta.

A questão que surge é: existe uma alternativa militar viável?
A resposta varia conforme os objetivos específicos de uma intervenção, como explica o ex-coronel do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Mark Cancian.

Segundo Cancian, embora nenhuma ação militar consiga impedir completamente o governo iraniano de reprimir seus protestos, os EUA poderiam atacar as forças de segurança, principalmente a Guarda Revolucionária, com o intuito de punir o país e demonstrar sua vulnerabilidade às forças de segurança iranianas. Ele trabalha atualmente no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), uma organização de análise com sede em Washington.

Por sua vez, Ashok Swain, líder do departamento de pesquisa em paz e conflitos na Universidade de Uppsala, na Suécia, reforça que qualquer intervenção deve ser limitada, destinada a atingir objetivos específicos, como a proteção de tropas americanas ou de seus aliados.

Para ele, ações regionais de dissuasão — incluindo defesa aérea, antimísseis, proteção naval e linhas vermelhas bem definidas — combinadas com intervenções seletivas e atribuíveis, seriam o caminho mais prudente.

Ambos os especialistas concordam que estratégias que envolveriam o uso de armas avançadas, como o bombardeiro furtivo B-2 ou mísseis Tomahawk utilizados na Operação Martelo da Meia-Noite, não seriam adequadas neste contexto.
Cancian destaca que esses sistemas são utilizados em operações específicas, como na missão de 2019, que atacou instalações nucleares iranianas, devido à sua capacidade de transportar bombas altamente especializadas para alvos fortificados e enterrados profundamente.

Swain adverte que ataques dessa magnitude envolvem riscos políticos elevados, são difíceis de controlar, suscetíveis a interpretações equivocadas e podem desencadear retaliações contra os EUA e seus aliados na região.

Sobre as consequências potenciais, o analista em relações internacionais Mohammad Eslami, do Instituto Universitário Europeu em Florença, recomenda cautela. Ele argumenta que uma ação militar dos EUA provavelmente geraria ganhos estratégicos mínimos, ao mesmo tempo em que aumentaria a instabilidade regional, exportando insegurança e fortalecendo a resistência do Irã ao invés de enfraquecê-la.

Swain acrescenta que qualquer operação que vá além de ações direcionadas a um adversário nuclear com influência no Oriente Médio pode ser prejudicial para os interesses americanos. Ele alerta que uma escalada indiscriminada fortaleceria grupos radicais e colocaria civis em risco, além de poder gerar uma cadeia de retaliações.

Para Cancian, ações focadas, como ataques a quartéis-generais ou bases de forças de segurança, seriam a única estratégia viável em curto prazo e provavelmente não provocariam repercussões graves. Ele ressalta que os EUA evitariam confrontos perto dos manifestantes ou locais de conflito mais intensos.

Quanto à captura do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989, ela não parece ser uma tática provável. Apesar de Eslami admitir que o assassinato do líder iraniano seria teoricamente possível, ele acredita que as chances disso ocorrerem são mínimas, devido à forte estrutura de proteção e à lealdade da Guarda Revolucionária.

Mark Cancian também reforça que, mesmo numa hipótese remota de captura ou eliminação de Khamenei, o momento não seria oportuno. Ele explica que o Irã possui uma defesa interna robusta, uma vasta extensão territorial e unidades altamente leais, como a Sepah-e Vali-e Amr, que garantiria a sua proteção.

Quanto às alternativas não militares, com recursos limitados, os EUA podem optar por medidas menos agressivas. Swain sugere que pressão financeira sobre entidades ligadas à repressão, ações de defesa regional — como sistemas antimísseis e segurança marítima — e esforços diplomáticos com incentivos e sanções sejam estratégias mais eficazes.

Ele também destaca que o suporte discreto à sociedade civil iraniana, incluindo acesso à informação, pode ter um impacto mais duradouro do que ações militares, que muitas vezes alimentam a retórica de interferência estrangeira.

Cancian recomenda que a restauração da internet bloqueada no país desde 8 de janeiro poderia fornecer um auxílio importante aos manifestantes, facilitando comunicação, compartilhamento de informações e mobilização.

Por fim, Eslami ressalta que a decisão de agir unilateralmente cabe aos EUA, mas que a melhor estratégia envolve o retorno ao direito internacional, a diplomacia e o fortalecimento de instituições multilaterais. Segundo ele, intervenções unilaterais aumentam a instabilidade e seguem um padrão do pós-Segunda Guerra Mundial, no qual ações militares geralmente resultam em insegurança prolongada, e não em ordem duradoura.