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Até que idade é seguro continuar ao volante? Reflexões sobre condutores idosos

Três residentes de Alagoas demonstram que, com cuidados e disposição, é possível manter a condução mesmo na terceira idade

Até que idade é seguro continuar ao volante? Reflexões sobre condutores idosos

No estado de Alagoas, os motoristas com 60 anos ou mais representam aproximadamente 17,16% do total de condutores, totalizando 128.409 pessoas. Essa faixa etária ocupa a terceira colocação em quantidade, ficando atrás apenas do grupo de 32 a 38 anos, com 131.977 indivíduos (17,63%), e dos condutores entre 39 a 45 anos, que totalizam 131.914 (17,63%).

Surpreendentemente, há mais idosos dirigindo do que jovens na faixa de 25 a 31 anos, que somam 121.533 condutores (16,24%). Ainda nesta análise, os motoristas entre 45 a 52 anos representam 13,46% (100.712 pessoas), aqueles entre 53 a 59 anos totalizam 72.884 (9,74%), e os jovens de 18 a 24 anos, 60.796 indivíduos (8,12%).

Conforme o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), não há uma idade limite definida para cessar a condução de veículos no país. A decisão depende das condições físicas e mentais do motorista, que são avaliadas especialmente no momento de renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Um exemplo é seu Gejyne Gusmão, de 85 anos, que utiliza seu carro diariamente para tarefas com a família. Com uma CNH renovada em julho do ano passado, ele continua dirigindo com entusiasmo, mesmo tendo atingido essa idade em novembro de 2025. Seu Gusmão aprecia a liberdade de conduzir, realizando compras, consultas médicas, passeios e tratamentos como pilates e acupuntura.

Ele é pai de quatro filhos, avô de nove netos e bisavô de dois. Nos feriados e férias, costuma levar a família para destinos no litoral de Alagoas, e brinca dizendo que, se a repórter quiser uma carona, pode colocar seu nome na lista, evidenciando sua disposição para continuar dirigindo.

Outra condutora de destaque é Maria do Carmo de Araújo Vanderlei, de 70 anos. Ela vem dirigindo desde os 43, priorizando sua saúde com exames periódicos e consultas oftalmológicas anuais. Sua CNH, renovada em março, foi aprovada por médicos que atestaram sua capacidade de continuar ao volante. Maria do Carmo afirma nunca ter sofrido discriminação por parte de motoristas mais jovens e confia na sua experiência ao conduzir.

João do Carmo Silva, de 71 anos, há 51 anos dirige e se orgulha de sua trajetória, afirmando estar apto a seguir dirigindo em vias urbanas e estradas de todo o Brasil. Para ele, motoristas com mais experiência têm vantagens, e a decisão de parar de dirigir geralmente é uma escolha do próprio condutor ou de seus familiares, que devem estar atentos a sinais de dificuldades visuais, problemas com a visão noturna, catarata, glaucoma ou dificuldades na adaptação à mudança de iluminação.

Além de questões de saúde, fatores como artrite avançada, doenças cardíacas ou distúrbios neurológicos — como Alzheimer ou Parkinson — podem comprometer a capacidade de conduzir. A perda de coordenação motora, força e agilidade também representam riscos, podendo levar a acidentes ou incidentes.

Perspectiva médica sobre a condução na terceira idade
De acordo com a médica geriatra Clarita Melo, não há restrição etária formal para conduzir, sendo avaliada a cognição e a funcionalidade do motorista. Ela explica que a renovação da CNH costuma acontecer de forma mais frequente após os 50 anos, tornando-se ainda mais rigorosa após os 70, com avaliações que precisam evidenciar a capacidade de raciocínio, memória, velocidade de reação e controle emocional.

Clarita, especialista em Cuidados Paliativos e oncogeriatria, reforça que o idoso pode manter sua habilitação enquanto sua cognição e suas habilidades físicas estiverem preservadas. Para ela, exames que verificam a memória, a rapidez na tomada de decisões, os reflexos e o tônus muscular são essenciais para garantir uma condução segura, considerando também que transtornos cognitivos graves ou fragilidade física podem aumentar riscos ao volante.

O Departamento Estadual de Trânsito (Detran) reforça a necessidade de exames médicos e psicológicos na renovação da CNH para condutores acima de 60 anos, com avaliações que incluem vista, audição e testes cognitivos. A validade da carteira costuma ser menor para essa faixa de idade, podendo chegar a três anos, dependendo do resultado das avaliações clínicas.

Antes de obter a primeira habilitação, idosos passam por uma avaliação minuciosa, incluindo procedimentos médicos, psicológicos e treinamento prático, com aulas específicas para adaptação às novas exigências no trânsito e às tecnologias veiculares.

O envelhecimento da população brasileira tem impacto direto no aumento de motoristas na terceira idade. Com uma expectativa de vida de 76,4 anos em 2023, o país registra crescimento constante de pessoas com mais de 60 anos, que representam 15% da população e devem chegar a 40% em 2070. A experiência adquirida e a cautela são atributos frequentemente associados aos idosos, contrastando com o comportamento impulsivo de muitos jovens ao volante.

Embora seja comum associar maior discernimento à condução na terceira idade, o envelhecimento também traz desafios, como dificuldades cognitivas e motoras, que variam de pessoa para pessoa. Assim, a Carteira Nacional de Habilitação não é um direito absoluto, mas uma licença condicionada à aptidão do condutor. Quanto à avaliação psicológica, ela é fundamental para verificar capacidade de decisão, tempo de reação e controle emocional, essenciais para a segurança nas vias.

A perda da habilitação pode representar um impacto emocional significativo para o idoso, uma vez que simboliza a liberdade e independência perdidas. As famílias enfrentam dilemas ao precisar impor restrições, muitas vezes com receio de conflitos ou resistência. Segundo dados do IBGE, a população alagoana envelheceu 2% nos últimos dez anos, passando de 6,3% em 2012 para 8,3% em 2022, com 259.583 idosos atualmente. Maceió acompanha essa tendência, passando de 5,9% para 8,6% na mesma período, totalizando 82.380 idosos na capital, com maior percentual de mulheres em relação aos homens.