17/01/2026 23:24:11

Acidente
17/01/2026 16:00:00

Idosos ao Volante: Até Quando Continuação Segura no Trânsito?

Três moradores de Alagoas demonstram que, com cuidados e disposição, é possível seguir dirigindo sem abrir mão dessa liberdade

Idosos ao Volante: Até Quando Continuação Segura no Trânsito?

No estado de Alagoas, indivíduos com 60 anos ou mais representam a terceira maior parcela de motoristas, totalizando 128.409 pessoas — o que equivale a 17,16% do total de condutores locais. Essa fatia fica atrás apenas do grupo de 32 a 38 anos, que soma 131.977 motoristas (17,63%), e dos indivíduos de 39 a 45 anos, com 131.914 condutores (17,63%).

Curiosamente, há mais idosos dirigindo do que jovens na faixa de 25 a 31 anos, que somam 121.533 indivíduos, ou seja, 16,24% do total. Na sequência, aparecem os motoristas entre 45 a 52 anos (100.712 pessoas, 13,46%), de 53 a 59 anos (72.884 pessoas, 9,74%) e jovens de 18 a 24 anos (60.796 pessoas, 8,12%).

Segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), não existe uma idade limite fixa para cessar a condução de veículos. A decisão depende do estado de saúde física e mental do motorista, sendo avaliada especialmente na renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Um exemplo é o motorista Gejyne Gusmão, que aos 85 anos utiliza seu carro diariamente para compromissos familiares. Sua CNH foi renovada em julho do ano passado, e ele completou 85 anos em novembro de 2025. Gejyne aprecia dirigir, seja para ir ao supermercado, consultar o médico, fazer passeios com a família, praticar pilates ou receber sessões de acupuntura. Além disso, costuma conduzir o veículo até mesmo em feriados e férias, quando viaja para pousadas no litoral de Alagoas.

Esse entusiasta da direção afirma que não se preocupa com possíveis preconceitos contra motoristas idosos, pois acredita que sua saúde está em dia e que seus exames confirmam sua aptidão para conduzir. Ele brinca, inclusive, que há muitas pessoas querendo viajar com ele, chegando a oferecer uma carona, e ainda sugeriu colocar o nome de um entrevistador na lista de passageiros.

Maria do Carmo de Araújo Vanderlei, aos 70 anos, dirige desde os 43. Ela mantém sua saúde em dia, realizando exames periódicos e visitando oftalmologistas anualmente. Sua CNH recente, renovada em março, foi aprovada pelos médicos, que não identificaram problemas que a impedissem de continuar ao volante.

Ela afirma que nunca enfrentou discriminação por parte de motoristas mais jovens e acredita que motoristas mais velhos tendem a ser mais experientes. João do Carmo Silva, de 71 anos, dirige há 51 anos e também se considera apto a continuar dirigindo. Ele destaca sua experiência e acredita que motoristas experientes possuem vantagens na condução.

O momento de interromper a direção muitas vezes depende do próprio condutor ou de seus familiares, que devem estar atentos a sinais como dificuldades na visão, problemas na visão noturna, catarata, glaucoma ou dificuldades na adaptação às mudanças de iluminação. Além de questões de saúde, doenças progressivas, como artrite severa, problemas cardíacos ou transtornos neurológicos como Alzheimer ou Parkinson, podem comprometer a capacidade de conduzir com segurança.

Perda de coordenação motora, diminuição da agilidade ou força muscular, que dificultam manobras ou o acionamento dos pedais, além de acidentes, também são fatores de preocupação.

Visão da Medicina sobre Motoristas de Idade Avançada
Segundo a especialista em geriatria Clarita Melo, do Hospital Sírio-Libanês, não há uma restrição etária definida para exercer a direção, sendo a avaliação baseada na cognição e na funcionalidade do indivíduo. Ela explica que a renovação da CNH deve ser mais frequente a partir dos 50 anos e ainda mais rigorosa após os 70, alinhada às avaliações geriátricas.

Com especialização em oncogeriatria e atuando como preceptora na Santa Casa de Misericórdia de Maceió, Clarita afirma que o idoso pode dirigir enquanto sua capacidade cognitiva e física estiver preservada. Ela detalha que exames médicos e psicológicos avaliam memória, raciocínio, reflexos, força muscular e controle emocional — essenciais para uma condução segura.

Ela alerta que indivíduos com declínio cognitivo severo, transtornos de humor graves ou fraqueza muscular não satisfatória devem reconsiderar a direção, pois há risco aumentado de acidentes. Situações que exigem maior destreza, como manipular o volante ou os pedais, também devem ser consideradas.

Orientações do Detran para Motoristas Idosos
O Departamento de Trânsito recomenda que, a partir de 60 anos, os condutores renovem sua CNH mediante exames médicos e psicológicos. Conduzir veículos oferece autonomia, mas é importante reconhecer limites pessoais — a decisão de parar de dirigir pode ser feita pelo próprio idoso ou recomendada pelo exame de aptidão física e mental na hora da renovação.

O CTB estabelece que a renovação da carteira deve ser mais frequente com o avanço da idade: até 49 anos, a validade é de dez anos; de 50 a 69 anos, cinco anos; e a partir de 70 anos, três anos. Antes da renovação, o motorista deve realizar exames rigorosos que avaliem sua saúde visual, auditiva e mental. Para quem está adquirindo a primeira habilitação na terceira idade, o procedimento inclui avaliações clínicas, psicológicas e treinamento teórico-prático para adaptação às condições do trânsito e às novas tecnologias.

Wilton Costa, chefe de Controle de Condutores do Detran, explica que o processo envolve pagamento de taxas, avaliações médicas detalhadas e agendamento prioritário. Caso os exames indiquem alterações, podem ser solicitados testes adicionais, especialmente se houver doenças crônicas ou incapacidades físicas.

Na avaliação inicial, idosos passam por rigorosos testes médicos e psicológicos, garantindo que mantenham a capacidade de dirigir de forma segura. A renovação e a obtenção de primeira habilitação envolvem treinamentos específicos que abordam mudanças no trânsito e no uso de tecnologias modernas.

O envelhecimento da população brasileira reflete-se na crescente quantidade de motoristas idosos. Em 2023, a expectativa de vida atingiu 76,4 anos, impulsionando a proporção de pessoas com mais de 60 anos. Atualmente, esses indivíduos representam 15% da população nacional, previsão que chegará a 40% em 2070.

Apesar da maior experiência, motoristas mais velhos devem equilibrar cautela com segurança, pois o envelhecimento afeta funções cognitivas e motoras de maneiras distintas. Assim, a Carteira de Habilitação não é um direito absoluto, mas uma licença condicionada à avaliação contínua. A avaliação psicológica é fundamental para verificar habilidades de tomada de decisão, tempo de reação e controle emocional — aspectos essenciais para dirigir com responsabilidade.

Para muitos idosos, manter a carteira de motorista representa autonomia e autoestima. Por outro lado, famílias muitas vezes enfrentam dilemas ao precisar limitar a condução de um ente querido, equilibrando segurança e respeito às emoções. A população do estado de Alagoas envelheceu significativamente na última década, com um aumento de 2% na proporção de idosos, conforme dados do IBGE. Hoje, 8,3% da população local tem mais de 65 anos, ou seja, 259.583 pessoas, contra 6,3% há uma década. Em Maceió, a presença de idosos também cresceu: atualmente, representam 8,6% da população, com 82.380 indivíduos, mantendo a tendência de maior predominância feminina em relação aos homens.