A ideia de aceitar o 'nada', proposta pelo pensador Jean-Paul Sartre, pode ser a chave para uma nova perspectiva no início de um novo período.
De acordo com Sartre, os seres humanos são como criaturas lançadas ao mundo para existir, sendo, ao mesmo tempo, 'condenados a serem livres'.
Essa liberdade exige que façamos escolhas constantes. Na sua essência, não escolhemos nossas ações, mas somos responsáveis por elas, não havendo espaço para escapismos.
Para Sartre, a condição humana é marcada por uma angústia, pois carregamos a responsabilidade total por quem somos e pelo que fazemos.
Décadas antes de Sartre, Friedrich Nietzsche afirmou que 'Deus está morto', uma declaração que antecipou o pensamento existencialista e suas raízes filosóficas.
Apesar das ideias desafiadoras, Sartre também nos convida a nos vermos como uma tela em branco, sem um molde predefinido, reforçando que 'a existência precede a essência'.
Esse conceito revela que não temos uma natureza fixa, e que a liberdade radical nos permite criar nossa identidade a partir das escolhas que fazemos.
Segundo Sartre, nossa capacidade de se reinventar é quase ilimitada, e as circunstâncias externas não nos determinam totalmente, pois somos os autores do nosso próprio destino.
Nesse sentido, aceitar a liberdade significa também estar aberto ao 'nada', ao potencial de possibilidades que ainda não foram realizadas.
Como uma tela vazia, o ser humano está constantemente projetando seu ser no mundo, construindo significado a partir de suas ações e decisões, que são fruto de sua liberdade.
Para Sartre, não há um propósito predeterminado ao nascer, e cada pessoa deve atribuir sentido à sua existência desde o momento que entra no mundo.
Ele afirma que somos lançados ao mundo sem uma justificativa, e essa contingência é fundamental na compreensão de nossa liberdade.
O fato de questionar o mundo e imaginar diferentes possibilidades é uma expressão dessa contingência, uma negação do que é, em favor do que poderia ser.
Reconhecer o que não somos amplia nossas possibilidades de ser, pois evidencia aquilo que podemos vir a nos tornar.
Porém, a liberdade não é absoluta; ela possui limites. Sartre destaca que certas condições da realidade fogem ao nosso controle, como o fato de termos nascido, nossa condição física e social, e nossos relacionamentos com outras pessoas.
Nossos corpos, por exemplo, representam uma expressão concreta de nossas ações e escolhas, que não podem ser simplesmente descartadas.
Desde o nascimento, somos inseridos em contextos específicos — família, cultura, classe social — e, mesmo assim, temos a liberdade de interpretar e atribuir significado a essas experiências.
Para Sartre, a liberdade também reside na nossa capacidade de atribuir sentidos às circunstâncias externas, embora elas possam influenciar nossas opções.
Outra dimensão importante é a mortalidade: reconhecê-la é entender que, apesar do potencial de criar significado, não somos imortais, e essa consciência traz uma dor existencial, mas também uma oportunidade de valorizar nossa liberdade.
Nossas ações, por sua vez, também representam uma manifestação do nada. Não somos máquinas programadas, mas seres que escolhem objetivos livremente, motivados por nossas próprias decisões.
Essa liberdade nos habilita a estabelecer metas e a agir sem determinações externas, mesmo que nossa situação condicionante influencie nossas possibilidades.
Decidir o significado de nossa existência, como nascer em uma condição social específica, é uma demonstração dessa liberdade.
Para Sartre, chegar ao mundo sem um propósito intrínseco é libertador, pois elimina narrativas de destino e predestinação, alinhando-se à ideia nietzschiana de que 'Deus está morto'.
No entanto, essa liberdade também traz uma responsabilidade enorme — a de suportar a angústia de criar um sentido frente ao nada.
Ele sugere que devemos aceitar nossa liberdade com autenticidade e reconhecer que somos os autores do nosso próprio destino, mesmo que essa possibilidade gere ansiedade.
Ao assumir essa responsabilidade total, podemos viver com alegria e sem remorsos, apreciando a contingência de nossa existência.
O otimismo do existencialismo de Sartre reforça que, ao assumir o controle de nossas escolhas, moldamos nosso futuro e o da humanidade, mostrando que muito mais do que acreditamos, temos poder sobre nossas vidas.
Segundo o estudioso Nigel Warburton, essa filosofia nos lembra que muitas desculpas para nossas ações são apenas racionalizações, e que a verdadeira liberdade está ao alcance de todos que desejam assumir sua responsabilidade.