A crise que assola os Correios evoluiu nesta segunda-feira (29) com a divulgação de um plano de reorganização da companhia pública. Em meio a uma paralisação nacional dos funcionários, a administração confirmou a intenção de fechar mil agências consideradas deficitárias e de lançar um programa de desligamento voluntário (PDV) com previsão de redução de até 15 mil postos de trabalho, quase 20% do quadro atual.
A iniciativa, apresentada como uma estratégia para superar dificuldades financeiras, recebeu forte resistência de carteiros e de sindicatos representantes. 'Falam em modernização, mas o que realmente fazem é encerrar unidades e reduzir o quadro de pessoal. Isso não garante uma melhora no serviço', critica Suzy Cristiny, representante sindical dos Correios no Acre.
'Trata-se de um plano que desestrutura internamente a empresa, um triste exemplo de desmonte', acrescenta. O anúncio ocorre enquanto o movimento grevista persiste. Após rejeitar uma proposta de Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), as entidades sindicais continuam reivindicando reajuste salarial compatível com a inflação, reedição do acordo anterior e aporte de recursos federais para sustentar as operações.
Na coletiva realizada em Brasília, o presidente da estatal, Emmanoel Rondon, detalhou que a contratação de R$ 12 bilhões em crédito junto a cinco grandes bancos, com aval do Tesouro Nacional, é crucial para prover liquidez e evitar um colapso na operação. Os recursos deverão ser utilizados para quitar dívidas e assegurar fluxo de caixa.
Entre as ações do plano estão a venda de imóveis não utilizados, que pode gerar até R$ 1,5 bilhão, além da realização de cortes na rede de agências e a implementação de melhorias na saúde postal, que pretende economizar cerca de R$ 700 milhões anualmente.
Investimentos de aproximadamente R$ 4,4 bilhões também estão previstos para os próximos anos, focados em automação, tecnologia da informação e renovação da frota, com previsão de execução entre 2027 e 2030.
De acordo com Rondon, o crédito é fundamental para interromper a trajetória de perdas e recuperar a capacidade operacional da empresa. Contudo, o executivo alertou que a captação atual pode não ser suficiente, já que os Correios projetam uma necessidade adicional de até R$ 8 bilhões em 2026, sem definição de fonte de recursos. Enquanto a reestruturação avança, os funcionários permanecem em greve.
Após rejeitar a proposta de ACT, os sindicatos continuam reivindicando reajustes salariais que repousem a inflação, a reedição do acordo anterior e a injeção de recursos públicos para manter as operações. Marcos Sant’Aguida, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios no Rio de Janeiro, avalia que a proposta apresentada pela empresa representa um retrocesso nos direitos e aprofunda o desmonte iniciado no governo anterior. 'A maioria rejeitou o acordo porque ele não contempla reposição salarial, um direito garantido pela jurisprudência do próprio Tribunal Superior do Trabalho', afirma.
Para evitar uma escalada na paralisação, o TST determinou, por meio de liminar, a manutenção de 80% do efetivo em operação, sob risco de multa diária de R$ 100 mil aos sindicatos que descumprissem a decisão.
Desde o dia 23, a mobilização sindical intensificou-se, com maior adesão. No interior do país, a insatisfação dos trabalhadores é evidente. Wilton Domingos, presidente do sindicato de carteiros no Mato Grosso do Sul, denuncia que o plano reforça uma lógica de desmonte. 'Falam em crescimento, mas estão fechando postos na ponta. É a mesma estratégia de anos atrás: diminuir, precarizar e agora tentar disfarçar com o termo 'reestruturação'', critica.
Ele também destaca que o modelo operacional dos Correios ainda exige grande força de trabalho humano, uma vez que apenas 20% da estrutura está automatizada. 'Como crescer sem contratar ninguém? Estão cortando onde não dá para reduzir', questiona. Além disso, denuncia a ausência de diálogo com a categoria, que luta por contratos, melhores prazos de entrega e investimentos.
'Quem está na linha de frente não foi ouvido, e tudo isso exige reforço de pessoal, não cortes'. Apesar do discurso oficial de modernização e sustentabilidade, os trabalhadores alegam que o plano apenas promove o desmantelamento, abrindo espaço para eventual privatização ou parceria público-privada no futuro.
Suzy Cristiny aponta que há uma intenção de apresentar os Correios como uma empresa a ser vendida, com a perspectiva de abrir capital. 'Tudo indica que querem transformar os Correios em uma sociedade anônima, vendendo um ativo estratégico do Estado, sem respeitar o papel social que desempenham na garantia de integração, soberania e serviços públicos essenciais', alerta.
A crise dos Correios não se iniciou em 2025. Uma análise dos balanços financeiros da estatal, feita pelo Brasil de Fato, revela que, nos últimos 25 anos, ela apresentou lucros em 19 deles, mesmo cumprindo uma missão constitucional que impede sua privatização: a universalização do serviço postal em todos os municípios brasileiros. 'A manutenção do atendimento universal também fica ameaçada por esse plano de fechamento de unidades, que contraria os interesses dos trabalhadores e da sociedade', afirma Suzy Cristiny.
O alto custo de manter agências em localidades pequenas e remotas é compensado pelo dever legal de operação, mas os recursos provenientes de anos de lucros não foram reinvestidos na renovação do quadro de funcionários, que encolheu quase pela metade entre 2011 e 2023, mesmo com aposentadorias de milhares de trabalhadores. Além de atuar como operador logístico, os Correios desempenham funções estratégicas de Estado, entregando urnas eletrônicas, materiais escolares, documentos oficiais e atuando em emergências como enchentes ou pandemias. Participam também de programas sociais, como o Bolsa Família, em parceria com o INSS.
Essas tarefas, de interesse público, permanecem à responsabilidade da estatal, mesmo com os avanços de empresas privadas no setor. Nos últimos anos, a perda de contratos com entidades públicas e a redução de encomendas internacionais agravaram as receitas. Em 2023, uma mudança normativa do governo federal criou o programa Remessa Conforme, que alterou as regras do comércio exterior de pequenas remessas, permitindo que empresas privadas operem diretamente no transporte de mercadorias internacionais.
Alterações na regulamentação aduaneira também passaram a incluir taxas de frete e seguro no cálculo de impostos, aumentando os custos e deixando de lado a atuação da estatal. Dados internos indicam que, em 2022, quase 100% do mercado de pequenas encomendas internacionais era controlado pelos Correios.
No entanto, em apenas um ano, essa fatia caiu para aproximadamente 20%, causando uma forte redução na receita e agravando a queda no volume de cartas e telegramas, que já vinha de anos anteriores.