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Saúde
06/11/2021 10:00:00

Tensão causada pela pandemia fez aumentar os casos de bruxismo

Ranger ou apertar os dentes com frequência pode provocar dores e perda da qualidade de vida; saúde mental é a causa frequente


Tensão causada pela pandemia fez aumentar os casos de bruxismo

Ansiedade, estresse e má qualidade do sono, problemas experienciados de forma cotidiana durante a pandemia de Covid-19, podem ter feito aumentar os casos de bruxismo, um tipo de atividade muscular parafuncional – aquela que não tem função específica – caracterizada pelo ranger ou apertar dos dentes.

Um estudo realizado pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pela Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo) de Bauru analisou um grupo de 641 dentistas durante o período pandêmico e concluiu que 58% apresentaram sintomas de bruxismo durante a noite e 53% durante o dia. 

Acontece que o problema, que ocorre de forma inconsciente, começa de maneira imperceptível durante alguns momentos e pode se intensificar, causando dores de cabeça, no ouvido e na coluna, segundo explica o dentista Gustavo Issas, especialista em disfunção temporomandibular pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

“O bruxismo tem um fator emocional muito forte, como a ansiedade, angústia e preocupação, e nessa pandemia tudo isso aconteceu junto e muito rápido. Muitas vezes os pacientes que rangem os dentes não percebem, porque geralmente isso ocorre durante um curto espaço de tempo à noite, mas com a chegada da pandemia isso mudou, o que levou a um aumento da procura nos consultórios”, afirma Issas.

O especialista destaca que em casos mais graves, o bruxismo pode resultar na quebra ou no desgaste dos dentes, podendo quebrar até a raiz, o que leva à necessidade de um transplante.

“Outra coisa que nós dentistas percebemos é que quando a pessoa range ou aperta os dentes, faz marcas na língua e na bochecha. Então quando o paciente é jovem, percebemos que os dentes não estão gastos, mas a bochecha e a língua estão muito marcadas”, afirma.

A procura pelo dentista, no entanto, nem sempre é a primeira opção quando os sintomas de agravamento do bruxismo aparecem, o que dificulta o diagnóstico e o tratamento. Isso ocorre porque as dores, seja na cabeça, ouvido, coluna ou mesmo no maxilar, podem ser confundidas com outros problemas.

“Quando a pessoa vai ao dentista, o diagnóstico é feito de forma rápida. Só que muitas vezes a pessoa procura primeiro um clínico geral, um neurologista, um otorrino, por achar que o problema está em outro lugar. É difícil o paciente ter a consciência de que precisa ir ao dentista por conta do bruxismo, então isso vai se agravando até que os dentes se desgastam ou quebram, e aí fica mais difícil resolver”, afirma o especialista.

Como tratar o bruxismo

A principal maneira de impedir os danos causados pelo bruxismo, segundo Issas, é o uso da placa miorrelaxante, feita em acrílico sob medida para cada paciente, que impede o atrito e provoca um relaxamento da musculatura da boca, diminuindo a tensão.

“Essa placa tem uma espessura adequada para cada paciente. Algumas pessoas usam uma placa de silicone ou de acetato, que não tem essas características, e aí não serve. Tem que ir ao dentista para receber a orientação correta”, afirma o especialista.

Ir ao dentista é importante para o diagnóstico rápido

Ir ao dentista é importante para o diagnóstico rápido

REPRODUÇÃO/FREEPIK

A placa é indicada não apenas quando os sintomas do bruxismo aparecem de forma intensa, mas também para pacientes que já passaram pelo problema em outras ocasiões ou que tenham realizado muitos tratamentos odontológicos, como coroa e implante.

“Um jovem que não tenha feito nenhuma restauração não precisa da placa, mas para os que já fizeram muitos tratamentos é recomendado o uso de uma placa de mordida para dormir mesmo que não tenha nenhum sinal de bruxismo. Porque se uma pessoa ranger os dentes durante um segundo por noite, no final de um ano isso pode virar um problema”, explica Issas.

Como a saúde mental está relacionada ao bruxismo, o psiquiatra Luiz Scocca, membro da APA (Associação Americana de Psiquiatria), ressalta a importância de um acompanhamento especializado neste sentido.

“É preciso vencer o estigma que a psiquiatria tem. É uma medicina muito segura em que não necessariamente você sai do consultório com um medicamento, às vezes sai com orientações, com indicações de determinadas atividades, orientações em relação ao sono, porque transtornos do sono também podem levar ao bruxismo. A pessoa não vai sair de lá com um remédio de tarja preta”, afirma.

O psiquiatra explica que a ansiedade, por exemplo, é um transtorno do corpo e da mente, com sintomas físicos que podem simular várias doenças ou levar ao surgimento de outros problemas, como no caso do bruxismo.

“Um dos sintomas físicos da ansiedade é o aumento da tensão muscular, que pode ser em qualquer músculo, inclusive no masseter, que é a musculatura principal da boca que faz a mordida. O bruxismo ocorre no momento em que a tensão é maior, seja de noite ou de dia, e o excesso de tensão muscular vai levar às dores e ao desgaste dos dentes”, afirma o especialista.

A recomendação de Scocca para diminuir a tensão e a ansiedade é a aposta em hábitos saudáveis, como a prática de atividade física e uma alimentação equilibrada, que também contribuem para uma melhor qualidade do sono.

“Se não houver uma melhora do bruxismo com a mudança dos hábitos, aí vale a pena procurar um psiquiatra ou um psicólogo para fazer um tipo de terapia que seja eficaz contra o problema, a terapia cognitivo comportamental é a mais especializada para esses casos”, afirma.

Como evitar o bruxismo

A higiene do sono é uma estratégia recomendada pelo dentista Gustavo Issas para evitar os sintomas do bruxismo durante a noite, e está relacionada com a diminuição do uso de telas, como celular e televisão, antes do horário de dormir. 

“Pelo menos 40 minutos antes, desligar o celular, tomar um banho relaxante, um chá, apagar as luzes da casa e deixar o ambiente mais escuro, porque com as luzes acesas o organismo entende que a pessoa está em plena atividade e não na hora de dormir. A atividade física também ajuda muito na prevenção do bruxismo, porque melhora o sono e o metabolismo”, afirma.

Uma pesquisa realizada por universidades brasileiras com 1.368 pessoas mostrou que durante os primeiros meses de pandemia, 31% dos entrevistados vivenciaram uma diminuição do tempo de sono, sendo que 46% afirmaram ter notado uma piora da qualidade do sono. Além disso, 64% passaram a ficar mais tempo em frente às telas e 43,3% reduziram o tempo de atividade física.

Issas ressalta que quando a pessoa aperta ou range os dentes, ocorre uma mudança na postura e então pode refletir na coluna, com dores e torcicolo. Além disso, o uso excessivo do celular também impacta a postura e pode aumentar os sintomas do bruxismo.

“Tenho indicado muito a meus pacientes que façam quiropraxia, porque hoje ficamos muitas horas olhando o celular e isso faz mal para a coluna. Então às vezes não conseguimos ajustar os dentes do paciente porque a coluna dele está desajustada muito em função do celular e da falta de atividade física”, afirma o dentista.

r7