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Educação
05/09/2019 08:00:00

É o aluno que abandona a escola ou é a escola que abandona o aluno?


É o aluno que abandona a escola ou é a escola que abandona o aluno?

Em conflitos por atos ilícitos que os colocam na marginalidade, excluídos da educação brasileira idealizada, muitos adolescentes não conseguem acompanhar o ritmo de aprendizagem na escola. “Ao não serem sonhados como sujeitos educáveis e escolarizáveis, apresentamos-lhes, enquanto sociedade, o que eles verbalizam: suas vidas se reduzem a matar ou morrer, ou seja, se encontram com o real da morte“. Assim, escola “é um um lugar complicado, um real não simbolizado em suas vidas“, afirma a psicanalista Roselene Gurski no artigo “Educa-me ou te mato!“, publicado na revista Estilos da Clínica. O título, na verdade, é uma simbologia do pedido de socorro dos jovens nessa situação, também denominados de jovens infratores. 

Autora e também os leitores querem saber: “Por que os adolescentes não param na escola? O que a sociedade fez ou deixou de fazer para que esses jovens não colem na escola e não se interessem pelo crime? Por que se fixam no tráfico e não nos bancos escolares?“. Mas “dona, eu não abandonei a escola, foi ela que me abandonou”, respondem os jovens. A pesquisadora, experiente no tema violência juvenil, discute sobre intermediações com grupos de adolescentes nas periferias de Porto Alegre, contando sobre as rodas de conversa e as rodas onde há interação com música e poesia, em que os jovens expressam a brutalidade das ruas que não permite a eles sequer pensarem, pois, nessa realidade, “é matar ou morrer”. 

Foto: Pixabay /CC0

A autora cita as reflexões do educador Paulo Freire sobre a questão: “não eram os jovens que se retiravam da escola, mas a escola, com sua configuração e cultura intolerantes com as diferenças de todas as ordens, raciais, sociais, cognitivas e outras, que os expulsava da educação formal“. Nessa “pesquisa-intervenção“, a pesquisadora aponta uma contradição revelada pelos jovens em relação à aprendizagem formal, visto que, em um momento, veem a escola como “uma ponte, uma porta para o futuro” e, em outro momento, a universidade se torna “algo muito distante e mesmo inalcançável“, tendo-se em mente que o único futuro desses adolescentes se resume em “matar ou morrer”.

Destaca-se que a maioria dos jovens em “privação de liberdade” tem entre 16 e 18 anos, e que os atos infracionais dos mesmos, geralmente, não são os mais graves. Do ato infracional para a morte – é o destino de muitos adolescentes da periferia, principalmente dos jovens negros brasileiros. Em nosso país, 2,5 milhões de crianças e jovens estão fora da escola, e “muitos, depois de repetirem vários anos na escola, ao chegarem à adolescência, acabaram virando estatísticas de evasão“. O artigo chama a atenção para o fato de uma das causas dessa marginalidade ser a busca de uma resposta rápida, cujo fim seria preencher o vazio interior de alguém que vive em meio aos preconceitos, ao abandono e à pobreza; tais condições conduziriam os jovens a agarrarem-se, por carências de toda a espécie, à figura do chefe do tráfico, por exemplo.

O artigo mostra a fala reveladora de um adolescente sobre a ausência de estímulo emocional dos pais, no documentário Nunca me sonharam, de Cacau Rhoden: “Nunca me sonharam psicólogo, nunca me sonharam sendo um professor, um médico. Eles não sonhavam e não me ensinaram a sonhar”- aqui o rapaz se refere à ausência de um lugar simbólico para os jovens da periferia nos sonhos da nação. Nesse contexto, ressalta-se a importância da construção de expectativas de vida, e não de morte, para que os jovens não devolvam ao país, “com seus atos infracionais, o real que recebem como simbólico: Educa-me ou te mato!“, mas sim a expectativa de um futuro que trafegue fora das margens sociais, rumo à estrada por onde se avistem caminhos de inclusão social, política, cultural e, principalmente, educacional.

jornal.usp.br



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