Um ataque brutal realizado por supostos extremistas islâmicos deixou mais de 160 vítimas fatais na Nigéria, um dos episódios mais sangrentos registrados nos últimos tempos no país mais populoso do continente africano.
A ação ocorreu nesta terça-feira (03/02) em uma região que vem se tornando um novo ponto de conflito, agravando a crise de segurança que assola a nação.
Autoridades locais confirmaram que pelo menos 162 indivíduos perderam a vida durante o episódio, que foi um dos mais graves do período recente. As aldeias de maioria muçulmana de Woro e Nuku, situadas no estado de Kwara, foram alvo de ataques onde moradores que resistiram à doutrinação extremista foram atingidos.
Os agressores destruíram residências e roubaram mercadorias de estabelecimentos comerciais. Este episódio faz parte de uma sequência de atos de violência na região de Kwara e em outros pontos do país, apesar do apoio militar internacional, especialmente dos Estados Unidos, recentemente intensificado.
A Nigéria enfrenta uma situação de insegurança agravada por grupos armados que saqueiam aldeias, sequestram pessoas por resgate e protagonizam conflitos intercomunitários, notadamente nas regiões centrais e no norte, dominadas por organizações jihadistas ativas.
O panorama de conflitos envolve uma variedade de facções locais, incluindo o Boko Haram, que nasceu no próprio país, e sua dissidência, o Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP). Outros grupos, como o Lakurawa, ligado ao ISIS, também operam na área, além de organizações especializadas em sequestros e atividades ilegais de mineração.
Embora nenhum grupo tenha assumido oficialmente a autoria do massacre, tanto o governo estadual quanto o federal apontaram o dedo para células terroristas e jihadistas. Na quarta-feira, o presidente Bola Ahmed Tinubu anunciou que enviou uma unidade do Exército para Kwara, onde “terroristas do Boko Haram mataram aldeões inocentes na noite anterior”. De acordo com o mandatário, a operação denominada “Escudo da Savana” terá como objetivo combater os extremistas e garantir a segurança das comunidades vulneráveis.
Tinubu também condenou o ato como uma ação covarde e brutal, expressando revolta pela resistência dos moradores, que rejeitaram a doutrinação violenta e praticaram o Islã pacífico, contrário às práticas extremistas.
Ele destacou ainda o esforço da comunidade, composta por muçulmanos, que recusou se envolver na violência promovida pelos extremistas, ressaltando a importância do diálogo e da paz, embora não tenha fornecido um número oficial de vítimas.
A questão da violência na Nigéria é uma constante, especialmente em regiões do centro e noroeste, onde gangues armadas, frequentemente denominadas “bandidos”, realizam assaltos e sequestros em massa, às vezes considerados terroristas pelas autoridades.
Este cenário se soma às ações do Boko Haram no nordeste e do ISWAP desde 2016. Estes grupos já causaram a morte de mais de 35 mil pessoas, incluindo muitos muçulmanos, e deslocaram aproximadamente 2,7 milhões de civis, principalmente na Nigéria, mas também em países vizinhos como Chade, Camarões e Níger, conforme dados do governo e da ONU.
Na região do sudoeste, o grupo Lakurawa, ligado ao Estado Islâmico do Sahel (ISSP), também realiza ataques em estados como Kebbi e Sokoto há alguns anos. Em apoio às forças locais, os Estados Unidos enviaram um pequeno contingente militar, focado principalmente em operações de inteligência, como revelou na terça-feira o comandante do Comando Militar Americano na África (Africom), general Dagvin Anderson.
Trata-se do primeiro reconhecimento público da presença de soldados americanos na Nigéria desde os ataques aéreos contra o Estado Islâmico no país, ocorridos no final de 2025, com colaboração do exército dos EUA. Apesar de algumas divergências, Washington mantém seu respaldo às campanhas militares nigerianas contra os grupos armados.
Nos últimos meses, a relação diplomática dos EUA com a Nigéria ficou tensa após declarações do então presidente Donald Trump, que ameaçou atacar o país por considerá-lo negligente na proteção de seus cidadãos cristãos. Ainda que os cristãos também sejam alvo de ataques, especialistas apontam que a maior parte das vítimas de grupos extremistas são muçulmanos do norte, onde a maioria dos confrontos ocorre.