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Saúde
02/02/2026 23:00:00

Nova Espécie de Fungus Controlador de Insetos é Descoberta na Floresta Atlântica do Rio de Janeiro

Pesquisa revela fungo roxo que infecta aranhas e inspira produções de mídia e estudos científicos

Nova Espécie de Fungus Controlador de Insetos é Descoberta na Floresta Atlântica do Rio de Janeiro

Especialistas descobriram uma nova variedade de 'fungo zumbi' na Mata Atlântica, situada na reserva de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro. Batizado de Purpureocillium atlanticum, o nome faz referência à tonalidade violeta de sua estrutura e ao ambiente de origem.

Este avanço foi reconhecido como uma das dez descobertas mais relevantes de 2025 na categoria de novas espécies de plantas ou fungos pela renomada instituição londrina Kew Gardens.

O fungo pertence ao gênero Purpureocillium, que possui uma particularidade: infecta aracnídeos de teia, os quais criam armadilhas subterrâneas para capturar presas. A popularização do termo 'fungo zumbi' se deve à série de jogos e programas de televisão The Last of Us.

João Araújo, micologista brasileiro atualmente na Universidade de Copenhague, liderou a equipe responsável pela descoberta. Em entrevista à imprensa, ele detalhou que a equipe visitou uma reserva privada chamada Alto da Figueira, próxima a Nova Friburgo, com o objetivo de catalogar novas espécies de flora, fauna e microrganismos.

Durante a expedição, os pesquisadores localizaram a 'ponta' do fungo — chamado estroma — no solo da floresta. Com uma lâmina, Araújo removeu completamente a estrutura para análise detalhada.

Após análise, verificou-se que o fungo havia infectado uma aranha de teia que já se encontrava morta. O corpo de frutificação do organismo, que dispersa os esporos para proliferação, foi examinado com atenção, enquanto os esporos penetraram o exoesqueleto da aranha, atingindo sua hemolinfa — o equivalente ao sangue do artrópode — causando sua morte e propagando-se posteriormente.

A equipe observou que o fungo produz substâncias que combatem o sistema imunológico do hospedeiro, acelerando sua morte. Araújo também destacou que uma espécie semelhante, o Purpureocillium atypicola, já havia sido catalogada em países como Japão, Estados Unidos e Tailândia, mas estudos mais aprofundados revelaram diferenças entre as linhagens, indicando que elas representam um complexo de espécies distintas dentro do mesmo grupo.

Para esse estudo, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia portátil de sequenciamento genético, o Oxford Nanopore, que permite realizar análises rápidas no campo, antes do material biológico perder sua integridade, garantindo maior precisão na obtenção de informações genéticas.

O interesse pelo universo dos 'fungos zumbi' é crescente, já que muitas espécies relacionadas, como Ophiocordyceps, têm seu papel na cadeia ecológica, invadindo insetos como formigas e controlando seus movimentos para facilitar a disseminação dos esporos. A relação entre esses grupos de fungos e o recém-descoberto Purpureocillium atlanticum ainda está sendo estudada, mas há evidências de que ambos pertencem à mesma família e compartilham mecanismos evolutivos.

Contrariamente ao controle nervoso observado em espécies do gênero Ophiocordyceps, o Purpureocillium atlanticum infecta aranhas que permanecem enterradas, com os esporos crescendo em direção ao solo, longe de manipulação de comportamento. Atualmente, não há motivos de preocupação com esse fungo para os humanos, pois ele parece específico para aranhas de teia.

A descoberta reforça a ideia de que o mundo dos fungos ainda guarda segredos em grande quantidade, estimando-se que existam cerca de 2,5 milhões de espécies distintas globalmente, sendo que apenas uma fração de 10% já foi documentada.

Especialistas enfatizam que o estudo dos fungos é fundamental não só para ampliar nosso entendimento da biodiversidade, mas também para explorar possibilidades na medicina, pois esses organismos produzem antibióticos e outros compostos que podem ser utilizados no combate a doenças. No entanto, ainda há muito a ser descoberto devido à vasta quantidade de espécies não catalogadas.

Vasco Fachada, do Kew Gardens, destaca que a tecnologia moderna, incluindo recursos utilizados por videogames como The Last of Us, tem potencial para acelerar a pesquisa, despertando maior interesse de estudantes e profissionais na área micológica. Araújo brinca que os fungos são criaturas visualmente fascinantes, o que aumenta sua atração científica.