As projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sugerem que a colheita nacional de grãos, leguminosas e sementes oleaginosas deve diminuir 3% em comparação ao recorde estimado para 2025. Segundo Carlos Barradas, responsável pelos levantamentos agrícolas do IBGE, essa queda ocorre principalmente porque o volume de produção deste ano foi excepcionalmente elevado, resultado de condições climáticas favoráveis às safras anteriores. "A forte performance na primeira e segunda colheita de 2025 dificilmente se repetirá em 2026", afirmou.
A dinâmica do clima, cada vez mais marcada por eventos extremos, aliada a uma possível diminuição na produção agrícola, coloca uma pressão adicional sobre os preços dos alimentos, de acordo com André Braz, pesquisador da FGV/Ibre. Ele destaca que a mudança no padrão climático é um desafio estrutural, afetando não só a inflação, mas também o crescimento econômico do país.
Braz reforça que, embora os preços de alimentos tenham ficado abaixo da média histórica em 2025, com uma alta de 1,4%, esse valor ainda é considerado "incômodo" devido à persistência de preços elevados desde o início da pandemia de Covid-19. Ele explica que somente 0,14 ponto percentual dessa variação foi atribuída ao fenômeno El Niño, indicando que outros fatores também contribuíram.
Para 2026, a expectativa é que o impacto climático seja mais concentrado na segunda metade do ano, podendo estender-se até 2027, caso o fenômeno El Niño se confirme ainda neste ano. Segundo Braz, uma eventual formação do fenômeno neste período significará que parte dos efeitos só serão sentidos futuramente, mais próximo ao início de 2027.
Dados do Climatempo indicam que o aquecimento do Pacífico Equatorial poderá começar já no primeiro semestre, com sinais perceptíveis a partir de março. A formação do El Niño deve ocorrer entre o final do outono e o começo do inverno, com uma evolução mais rápida semelhante ao episódio de 2023.
Esse fenômeno provoca alterações distintas em diferentes regiões do Brasil: o Sul sofre com chuvas intensas e frequentes, enquanto o Norte e Nordeste enfrentam seca e redução das precipitações. Além disso, o El Niño aumenta as temperaturas, causando enchentes na região Sul e escassez de água no Norte, impactando diretamente a agricultura.
As previsões indicam, no mínimo, uma intensidade moderada do evento climático. Dados recentes da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional) apontam uma maior chance de ocorrer um El Niño de intensidade moderada ou superior entre agosto e outubro, com um pico histórico entre novembro e janeiro.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, avalia que os efeitos do El Niño sobre a inflação de alimentos no Brasil deverão se intensificar a partir da segunda metade de 2026. Ele estima que o fenômeno possa elevar a inflação de alimentos em cerca de 0,8 ponto percentual neste ano. Segundo Imaizumi, atualmente o cenário é de La Niña, com impacto menor na produção local. A previsão é de que, a partir do segundo semestre, o país transite para um padrão de El Niño, impactando com maior intensidade a cadeia de alimentos.
Ele destaca ainda que, apesar de a inflação de alimentos no período pandêmico de 2025 ter ficado abaixo da média histórica, com variação de 1,4%, os preços continuam "incômodos" por estarem elevados desde o início da crise sanitária. Apenas 0,14 ponto percentual dessa alta foi atribuída ao El Niño, sugerindo outros fatores também influenciaram.
Para 2026, a previsão é que o efeito climático não seja tão forte, pois se concentrará principalmente na segunda metade do ano, podendo refletir também em 2027. Caso o El Niño se confirme nesta temporada, parte dos efeitos só será percebida posteriormente, impactando o período seguinte.
A inflação de janeiro, medida pelo IPCA-15, apresentou uma aceleração depois de sete meses consecutivos de queda, impulsionada pelos preços de alimentos e bebidas, que subiram 0,31%, com destaque para a alimentação em domicílio, que avançou 0,21%.
De acordo com André Braz, coordenador de índices de preços da FGV/Ibre, essa alta atualmente não indica uma tendência de longo prazo. Ele explica que ela foi resultado de fatores sazonais, típicos do verão, como hortaliças, legumes e frutas. No entanto, Braz alerta que o cenário pode se alterar com a evolução das condições climáticas ao longo do ano, especialmente com a possibilidade de o fenômeno El Niño afetar a agricultura a partir do segundo trimestre de 2026.
Ele enfatiza que, embora seja difícil precisar a intensidade do impacto, há uma tendência de aumento nos preços devido ao risco de safra reduzida, embora não haja uma política econômica que possa resolver a escassez de produto em caso de mau desempenho agrícola. "Quando há uma queda na oferta, os preços sobem, independente das ações de política monetária", conclui.