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Especial
31/01/2026 22:00:00

Aumento da Insegurança entre Brasileiros nos Estados Unidos Levanta Preocupações na Comunidade

Conflitos envolvendo operações de imigração geram medo e solidariedade em Minneapolis, enquanto autoridades enfrentam críticas por violações legais

Aumento da Insegurança entre Brasileiros nos Estados Unidos Levanta Preocupações na Comunidade

A cidade de Minneapolis, localizada no estado de Minnesota, tem experimentado um clima de apreensão crescente após uma ação policial federal de imigração que culminou na morte de civis americanos. Essa operação, que teve início com alegações de fraudes em programas sociais envolvendo comunidades somalis, resultou em múltiplas detenções e confrontos, aumentando as tensões locais e provocando protestos por todo o país.

Em meio à atmosfera de tensão, a comunidade brasileira na cidade e arredores tem se mobilizado ativamente. Além de buscar suporte e informações junto ao consulado, os imigrantes têm observado com preocupação os efeitos dessas medidas sobre suas famílias, trabalhadores e o cotidiano social de Minneapolis. Kathya Cibelle Dawe, professora de Direitos Humanos e cônsul honorária do Brasil em Minnesota, há 16 anos nos EUA, destaca como o cenário atual alterou a percepção de segurança e fomentou redes de apoio entre os imigrantes e a população local.

Dawe aponta que o medo ultrapassa o receio de quem não possui documentação regular: famílias inteiras, estudantes e trabalhadores que não podem exercer suas atividades remotamente vivem sob constante ameaça de abordagens por parte de agentes federais. “A tensão é contínua. Pessoas que antes se movimentavam livremente agora pensam duas ou três vezes antes de sair de casa”, ela afirma.

As ações realizadas em Minneapolis foram oficialmente justificadas pelo governo federal como uma resposta a supostas irregularidades em programas sociais ligados à comunidade somali na região. No entanto, Dawe explica que essas investigações não são prioridade do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), cujo foco tem sido a realização de detenções massivas e operações agressivas, as quais já resultaram na morte de civis como Renee Good e Alex Pretti.

Pelo menos oito mortes ocorreram nos primeiros dias de 2026 em circunstâncias relacionadas a confrontos com agentes ou sob custódia do ICE, de acordo com dados de veículos internacionais e relatos de manifestações e tensões crescentes em cidades como Minneapolis. Esses incidentes elevam para 32 o número de óbitos sob custódia do ICE em 2025, um recorde em mais de vinte anos, conforme registros de organizações que monitoram a mortalidade vinculada à imigração nos EUA.

Kathya Dawe também lembra de diversos casos nos quais o uso da força letal foi empregado por agentes federais. Além disso, denúncias de violações a direitos constitucionais, como o direito ao devido processo legal ou a proteção contra buscas sem mandado judicial, têm sido frequentes. Pessoas detidas sem justificativa clara ou sem acesso a advogados, mesmo alegando cidadania americana, fazem parte das reclamações recebidas pelo consulado brasileiro.

A morte do enfermeiro Alex Pretti, atingido por disparos de agentes do ICE, gerou uma onda de manifestações em Minneapolis, refletindo o impacto dessas ações na comunidade local.
"Um dos principais problemas, tanto do ponto de vista dos direitos humanos quanto da legislação norte-americana, é a violação do devido processo legal garantido pela Quinta Emenda durante operações do ICE. Há relatos de pessoas detidas sem motivos, sem acesso a advogados e impedidas de apresentar documentos, além de cidadãos americanos abordados apesar de o ICE não ter jurisdição sobre eles, além de entradas em residências sem mandado judicial válido", explica Dawe.

Em um episódio recente, mencionado pela cônsul, agentes do ICE invadiram uma residência em St. Paul sem mandado, armados e algemando um homem de 56 anos, que foi deixado na neve usando apenas shorts e sandálias. Após identificar que ele era um cidadão americano naturalizado, os agentes o liberaram horas depois, sem justificativas. Um memorando interno obtido pela agência Associated Press revela que há tentativas de modificar normas para permitir invasões em domicílios sem mandado, o que viola orientações anteriores que buscavam limitar ações federais às fronteiras e áreas autorizadas pela Constituição.

Decisões da Suprema Corte em setembro de 2025 autorizaram o uso de fatores como etnia, cor de pele e sotaque — incluindo o espanhol — para orientar abordagens, prática conhecida como perfilamento racial, considerada controversa. Kathya Dawe afirma que essas práticas violam princípios constitucionais e que o ICE não possui autoridade legal para avaliar características físicas ou linguísticas ao realizar operações migratórias.

Para a comunidade brasileira, esses acontecimentos têm consequências concretas. Dawe relata um aumento expressivo no número de contatos de brasileiros, muitos em estado de desespero após familiares ou amigos serem detidos e desaparecerem em unidades federais de outros estados, como Texas e Louisiana. A dificuldade de localizar os detidos, agravada pelo deslocamento de unidades, dificulta o acesso de familiares e advogados.

“Muitos brasileiros solicitam ajuda para renovar documentos ou até para retornar ao Brasil, pois perderam a segurança de permanecer aqui”, relata.

No entanto, apesar do clima de medo, várias ações de solidariedade têm surgido na cidade. Grupos comunitários e brasileiros se mobilizam para arrecadar alimentos e doações, apoiando imigrantes que hesitam em sair de casa.
"Verificamos uma resposta forte da comunidade de Minneapolis, que organiza mutirões para ajudar, independente da origem. São ações que refletem um espírito de acolhimento, contrabalançando o medo causado pelas operações federais", conclui a cônsul, destacando o sentimento de união que tem emergido em meio à crise.