Após a assinatura de um pacto com o Mercosul, a União Europeia alcançou um entendimento comercial com a Índia, encerrando longas décadas de negociações estagnadas. O acordo visa duplicar as exportações de bens europeus para o país asiático até 2032, promovendo a eliminação ou redução de tarifas em mais de 90% dos produtos comerciais entre os dois blocos.
A iniciativa pretende ampliar significativamente o comércio bilateral, facilitando a entrada de uma vasta gama de itens, desde veículos e componentes industriais até vinhos, chocolates e massas. Além disso, a UE se compromete a reduzir tarifas de 99,5% dos produtos importados da Índia ao longo de sete anos, conforme divulgado pelo Ministério do Comércio e Indústria indiano.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que anunciou a assinatura do pacto no início do dia, destacou que o acordo irá reforçar os setores de manufatura e serviços na Índia, além de aumentar a confiança de investidores na terceira maior economia asiática.
Segundo um comunicado da Comissão Europeia, o comércio de bens entre a UE e a Índia deverá crescer, com as exportações europeias ao país aumentando substancialmente, graças à eliminação de tarifas em 96,6% dos produtos, incluindo automóveis, bens industriais, vinhos, chocolates e massas.
A UE, por sua vez, reduzirá tarifas em 99,5% dos itens importados da Índia, com uma implementação prevista ao longo de sete anos. Essa estratégia faz parte de um esforço maior para que os dois blocos contem com maior autonomia frente às políticas tarifárias de Washington, especialmente diante do impacto das medidas de Trump.
A conclusão das negociações ocorre num momento em que a globalização está em rápida transformação, com a UE buscando diminuir sua dependência econômica dos Estados Unidos e da China, enquanto a Índia busca diminuir sua imagem protecionista e compensar uma tarifa de 50% imposta por Trump, equilibrando também suas relações com a Rússia.
De acordo com Amitendu Palit, especialista do Institute of South Asian Studies, as nações estão cada vez mais abertas a estabelecer alianças, especialmente diante do clima de instabilidade causado pelas políticas de Trump. “Diversificar as parcerias é fundamental”, reforça o pesquisador.
O acordo comercial mais ambicioso que a Índia já assinou prevê também a autorização para que até 250 mil veículos fabricados na Europa ingressem no país com tarifas preferenciais, uma cota mais de seis vezes maior do que em acordos anteriores, de acordo com a Bloomberg News. Além disso, as tarifas sobre vinhos europeus de alta qualidade serão reduzidas de 150% para 20%, de forma progressiva, conforme documento da Comissão Europeia.
Esse pacto também oferece uma vantagem competitiva à Índia na exportação de produtos intensivos em mão de obra, como roupas, joias e pedras preciosas, que sofreram impactos com as tarifas elevadas de Trump. Bruxelas também fez compromissos vinculantes relativos à mobilidade estudantil, vistos pós-estudo e abriu concessões em 144 setores de serviços, enquanto manteve os laticínios fora do acordo.
A expectativa é que a assinatura formal ocorra após uma análise jurídica, um processo que deve durar cerca de seis meses, além da necessidade de ratificação pelo Parlamento Europeu. O anúncio acontece dias após a Índia ter firmado acordos comerciais com a Nova Zelândia e Omã. Ainda, a UE finalizou um acordo de comércio com o Mercosul, que aguarda ratificação pelos legisladores europeus.
Enquanto isso, Narendra Modi busca ampliar os mercados para a Índia, que até agora foi rotulada por Trump como “o rei das tarifas”. Desde maio passado, o premiê já assinou pactos comerciais com o Reino Unido, Omã e Nova Zelândia, e agora mira parcerias com o Mercosul, Chile, Peru e o Conselho de Cooperação do Golfo, visando fortalecer sua presença internacional e garantir recursos estratégicos.
No ano fiscal até março de 2025, o comércio bilateral entre a UE e a Índia atingiu US$ 136,5 bilhões, com a EU respondendo por mais de 17% das exportações indianas, enquanto a Índia figura como o nono maior parceiro comercial do bloco europeu.
Além do aspecto econômico, os laços estratégicos entre a UE e a Índia também se intensificaram na área de defesa, sinalizando uma nova fase de cooperação. O acordo contempla o fortalecimento de alianças militares e de segurança marítima, além de possíveis exercícios navais conjuntos, apesar de desacordos recentes quanto à linguagem sobre a invasão russa na Ucrânia, que foram excluídos do documento final.
Embora ainda haja desafios, a parceria reforça uma visão de cooperação mais ampla, destacando o desejo de ambas as partes de ampliar suas colaborações militares, comerciais e de segurança, num contexto de incerteza global crescente.