A prática de simular dificuldades de mobilidade para obter vantagens em aeroportos tem se tornado uma preocupação global. Caso de uso indevido desse recurso, que visa facilitar o embarque e desembarque, tem levado a discussões sobre o impacto negativo na logística e na dignidade de passageiros com necessidades reais.
Quem frequenta aeroportos com regularidade já deve ter notado ou ouvido falar da cena frequente: viajantes solicitam o uso de cadeira de rodas antes do embarque, usufruem de prioridade na fila, entram cedo na aeronave e, ao chegar ao destino, caminham normalmente como se nada tivesse acontecido.
Nos Estados Unidos e em outras nações, esse comportamento ganhou o apelido de “Jesus do Corrimão”. A expressão refere-se a alguém que aparenta não conseguir caminhar, garantindo prioridade, mas que na saída do voo demonstra total normalidade, levantando suspeitas de uso indevido.
Recentemente, o tema voltou às manchetes após investigações e relatos que revelaram episódios em que passageiros fazem uso da assistência de forma não relacionada a uma necessidade médica genuína. A prática visa obter benefícios como embarque preferencial, filas menores, atendimento dedicado e acesso facilitado, especialmente em aeroportos e voos lotados.
O problema surge quando esse tipo de trapaça passa a representar uma séria ameaça ao sistema, originalmente criado para proteger e oferecer dignidade às pessoas com mobilidade reduzida. Quando o recurso é explorado por indivíduos sem necessidade, quem realmente necessita acaba sendo prejudicado.
Companhias aéreas e aeroportos têm reportado diversos impactos, incluindo a escassez de cadeiras de rodas e de funcionários treinados para atender a quem realmente precisa, atrasos operacionais por causa de logística adicional, sobrecarga de equipes em horários de pico, além de aumento no tempo de embarque e desembarque. Essas ações dificultam também a priorização de casos urgentes, como idosos frágeis ou pessoas com deficiências permanentes.
Outro efeito grave, embora menos perceptível, é o aumento da desconfiança dirigida a passageiros com limitações comprovadas — inclusive aquelas que não são visíveis — o que pode gerar constrangimentos, julgamentos equivocados e até desrespeito.
Para combater esse problema, o desafio reside em equilibrar ações de fiscalização com o respeito aos direitos daqueles que realmente necessitam de assistência. Entre as estratégias propostas estão uma triagem mais rigorosa, melhorias nos registros de solicitações, fiscalização de casos recorrentes e campanhas de conscientização.
Mais do que questões burocráticas, a discussão reflete um princípio fundamental de cidadania: quando alguém tenta burlar o sistema, não está ganhando vantagem, mas tirando uma oportunidade de quem realmente precisa. No contexto da assistência em aeroportos, isso equivale a tirar direito de quem enfrenta dificuldades legítimas e deve ser protegido.