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Atualidade
27/01/2026 16:00:00

Escândalo do Banco Master: o que se sabe e o que ainda falta esclarecer

Escândalo do Banco Master: o que se sabe e o que ainda falta esclarecer
 

 

 

A Polícia Federal deve retomar nesta terça-feira uma nova rodada de depoimentos de executivos e dirigentes do Banco Master, instituição controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. As oitivas fazem parte da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes envolvendo a tentativa de venda do banco ao Banco de Brasília (BRB).

As investigações indicam que o Banco Master teria tentado repassar ao BRB cerca de R$ 12,7 bilhões em carteiras de crédito consideradas inexistentes ou irregulares. A apuração conduzida pela Polícia Federal, com apoio do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários, aponta para um esquema de fraudes financeiras de grande porte que teria sido liderado por Vorcaro. A defesa do empresário nega qualquer irregularidade e sustenta que ele colabora com as autoridades, confiante no esclarecimento dos fatos dentro do devido processo legal.

Vorcaro e pessoas próximas, entre elas seu cunhado Fabiano Zettel, chegaram a ser presos durante a operação, mas posteriormente foram liberados. A liquidação do Banco Master afetou diretamente mais de 1,6 milhão de clientes e pode gerar um impacto superior a R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, entidade privada formada por bancos para assegurar o reembolso de determinados investimentos em caso de quebra de instituições financeiras.

Além do impacto econômico, o caso chama atenção pelo trânsito que Vorcaro mantinha nos meios político e jurídico, o que aumentou a expectativa, especialmente em Brasília, sobre o alcance das revelações que podem surgir com o avanço das investigações.

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras quatro empresas do conglomerado controlado por Vorcaro em novembro de 2025. No mesmo dia, o empresário foi preso pela Polícia Federal quando tentava embarcar em uma aeronave com destino aos Emirados Árabes Unidos. Segundo o Banco Central, a medida foi adotada em razão de uma grave crise de liquidez, de violações às normas do Sistema Financeiro Nacional e do comprometimento da situação econômico-financeira das empresas.

A fragilidade financeira do grupo já vinha sendo monitorada havia mais de um ano. Documentos analisados apontam que, entre 2019 e 2024, o Banco Master expandiu suas operações com base na emissão de Certificados de Depósito Bancário oferecendo rendimentos acima da média de mercado. A estratégia atraiu investidores, mas elevou o custo de captação de recursos e pressionou o caixa da instituição.

Com dificuldades para honrar os pagamentos dos juros desses títulos, o banco passou a vender ativos, incluindo carteiras de crédito consignado. Um relatório do Banco Central indica que essas cessões se intensificaram a partir do agravamento da crise de liquidez, quando a instituição já não conseguia renovar integralmente suas captações. Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro reconheceu a existência da crise, mas afirmou que o banco era solvente e vinha cumprindo seus compromissos até a véspera da liquidação. Ele também declarou que o modelo de negócios da instituição era baseado no funcionamento do Fundo Garantidor de Crédito, o que, segundo ele, estaria dentro das regras do sistema.

O caso se agravou com a liquidação do Will Bank, outra empresa do grupo, ocorrida em janeiro deste ano. De acordo com o Banco Central, a instituição deixou de cumprir obrigações com a bandeira Mastercard, o que tornou inevitável a liquidação. Clientes relataram falhas no funcionamento dos cartões no período que antecedeu a medida. O órgão regulador informou ainda que o Will Bank não havia sido liquidado junto com o Banco Master porque se buscou, inicialmente, preservar sua operação.

Comprado pelo Banco Master no início de 2024, o Will Bank possuía cerca de 6 milhões de clientes, principalmente no Nordeste, o que ampliou significativamente a base do conglomerado. Assim como ocorreu com o Master, o Banco Central decretou a indisponibilidade dos bens de controladores e ex-administradores do Will Bank.

Ainda não há um cálculo definitivo sobre o prejuízo total causado pela quebra do grupo, mas estimativas preliminares indicam que os ressarcimentos do Fundo Garantidor de Crédito podem chegar a R$ 47 bilhões. Caso confirmado, será o maior impacto da história do fundo desde sua criação. Parte expressiva desse valor já começou a ser paga aos clientes, conforme informou o próprio FGC.

O rombo será coberto pelas contribuições das instituições associadas ao fundo, incluindo bancos privados e públicos. O ministro da Fazenda destacou que Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal respondem por uma parcela relevante da capitalização do FGC, o que confere interesse público ao caso.

As investigações também avançaram sobre aplicações feitas por fundos de previdência ligados a governos estaduais e municipais. A Polícia Federal apura investimentos realizados pela Rioprevidência, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões no Estado do Rio de Janeiro, que aplicou quase R$ 1 bilhão em títulos emitidos pelo Banco Master. Esses investimentos não são cobertos pelo FGC, o que pode gerar prejuízo direto aos cofres públicos. A escolha dessas aplicações passou a ser investigada, e o então presidente da Rioprevidência foi exonerado após se tornar alvo de apuração.

Apesar da dimensão do caso, o Banco Central afirma que a quebra do Banco Master não representa risco sistêmico para o sistema financeiro nacional. O conglomerado tinha participação reduzida no total de ativos e captações do setor bancário, sendo classificado como instituição de pequeno porte. Especialistas também descartam a possibilidade de contaminação em cadeia, embora defendam maior rigor na fiscalização de instituições menores e fintechs.

O escândalo ganhou novos contornos ao alcançar o Supremo Tribunal Federal. O ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria de um recurso da defesa de Vorcaro que questionava a competência da Justiça para conduzir as investigações. Ao acolher o pedido, o ministro determinou que o caso tramitasse no STF e impôs sigilo ao processo. Decisões posteriores e revelações sobre relações indiretas entre familiares do ministro e empresas ligadas ao caso ampliaram as críticas e geraram pedidos para que ele deixasse a relatoria, todos arquivados pela Procuradoria-Geral da República.

As investigações também buscam esclarecer se houve influência política em favor do Banco Master. A análise de dados apreendidos pode indicar se o empresário contou com apoio de agentes públicos em suas negociações. Vorcaro confirmou ter mantido conversas institucionais com o governador do Distrito Federal sobre a tentativa de venda do banco ao BRB, versão que foi negada pelo governador. Reportagens apontaram ainda encontros com outras lideranças políticas, incluindo ex-presidentes, todos negados pelo empresário no que se refere a pedidos de favorecimento.

O caso segue em andamento e permanece no centro das atenções tanto do sistema financeiro quanto do meio político, à espera de novas revelações que possam esclarecer o alcance das irregularidades e as responsabilidades envolvidas.