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Brasil
24/01/2026 00:00:00

Aumento alarmante de crimes de violência de gênero no Amazonas em 2025 revela fragilidade nas políticas de proteção às mulheres

Ativistas criticam as ações do governo, destacando subnotificação e a escalada de atos violentos brutais contra o sexo feminino no estado

Aumento alarmante de crimes de violência de gênero no Amazonas em 2025 revela fragilidade nas políticas de proteção às mulheres

Em 2025, o Amazonas registrou um total de 20 feminicídios, indicando uma crise persistente na luta contra a violência de gênero, alertam defensores dos direitos humanos.

Especialistas apontam falhas no combate às agressões, solicitam ações governamentais mais efetivas e alertam para a subestimação real da quantidade de casos ocorridos.

Embora o número de feminicídios tenha caído 31% em relação ao ano anterior, quando 29 mulheres foram assassinadas, ativistas consideram o cenário alarmante devido à brutalidade dos crimes e à alta taxa de tentativas de feminicídio, que passou de 98 em 2024 para 108 em 2025, um aumento de 10%, segundo o Ministério da Justiça.

Dados do Sistema Nacional de Segurança Pública (Sinesp), divulgados nesta segunda-feira (20), apontam que o Brasil estabeleceu um novo recorde de homicídios com feminicídio no país, com 1.470 vítimas femininas em 2025, superando as 1.459 mortes de 2024. Esse crescimento segue a tendência de alta de 0,7% na taxa de feminicídios entre 2023 e 2024.

No Amazonas, a diminuição de 31% no número de feminicídios foi comemorada pelo secretário de segurança, Coronel Vinicius, que afirmou, em suas redes sociais, que o estado é considerado o mais seguro para as mulheres no país. No entanto, a historiadora e ativista do Movimento das Mulheres Negras da Floresta, Francy Júnior, contesta essa afirmação, ressaltando que a redução numérica não reflete a dura realidade de dezenas de mortes e do elevado índice de subnotificação.

Ela critica a declaração do secretário, afirmando que a violência contra as mulheres ocorre tanto na periferia quanto no centro urbano, e que nenhuma região pode ser considerada segura quando há registros frequentes de assassinatos por motivo de gênero.

Francy destaca que, apesar da diminuição estatística, a perda de vidas ainda é significativa, incluindo famílias destruídas e crianças órfãs, e que a sensação de insegurança persiste na sociedade local.

A ativista também aponta que a subnotificação dificulta a compreensão real do problema, além de denunciar o acesso limitado às redes de proteção e a persistência de mortes dentro de residências, muitas vezes após pedidos de ajuda ou registros de boletins de ocorrência.

Segundo ela, esses dados evidenciam uma crise profunda na proteção às mulheres no Brasil e no Amazonas, revelando que as políticas públicas existentes são insuficientes ou mal implementadas, agravando o problema de violência estrutural contra mulheres, especialmente as negras, pobres e periféricas.

Francy atribui o crescimento da violência a fatores como machismo estrutural, racismo, desigualdade social, impunidade, falhas na prevenção, dependência econômica, ausência de redes de apoio e uma cultura que normaliza a violência de gênero.

Ela critica a banalização da violência e o discurso de ódio contra as mulheres, destacando o aumento de atos cruéis e de registros audiovisuais que reforçam o desumanizado cenário de agressões cada vez mais bárbaras, como casos de mulheres sendo arrastadas por veículos, o que evidencia uma mensagem de terror e desvalorização da vida feminina.

Para Luzanira Varela, ativista, os números demonstram a falta de políticas públicas eficientes, evidenciando que o Amazonas ainda é um local de alto risco para as mulheres. Ela cita exemplos como a violência no transporte público, onde muitas mulheres são vítimas de assédio e estupro, e a limitação do funcionamento de delegacias especializadas, que operam apenas em horário comercial.

Ela critica o fato de o governo celebrar supostas reduções nos índices enquanto os projetos de proteção, como a Casa da Mulher Brasileira, permanecem paralisados ou incompletos, agravando a insegurança.

Varela defende uma mudança cultural profunda, enfatizando que o machismo e o patriarcado continuam muito presentes na sociedade, e que a educação de meninos e meninas é fundamental para combater essa cultura, que muitas vezes leva à violência física e até à morte.

Dados do Ministério da Segurança indicam que, em 2025, ocorreram 31.185 estupros no país, com o Amazonas respondendo por 391 desses casos, um aumento de 9% em relação aos 356 registros de 2024. As tentativas de feminicídio totalizaram 3.661, um crescimento de 16%, com o estado registrando 108 ocorrências, 10% a mais do que no ano anterior.

Marília Freire, coordenadora do Fórum Permanente de Mulheres, associa esse aumento à ascensão de ideologias patriarcais e fundamentalistas, que reforçam a submissão feminina. Ela afirma que, mesmo com a redução de mortes, o Amazonas ainda é uma região de alto risco, com índices preocupantes de estupros e violência doméstica, colocando em xeque a narrativa de segurança oficial.

A especialista destaca que a subnotificação de feminicídios, como no caso de Julieta Hernandez, assassinada em dezembro de 2023, em Presidente Figueiredo, contribui para uma visão distorcida da real situação. Ela defende maior transparência nos dados, sugerindo que a classificação incorreta de homicídios dificulta a compreensão do fenômeno.

Freire também observa que a brutalidade dos crimes tem aumentado, com atos cada vez mais cruéis e registrados em vídeos, fruto de impunidade e do ambiente de desrespeito generalizado. Segundo ela, a normalização do machismo alimenta a violência, que se manifesta na execução de mulheres de forma mais odiosa e desumana.

Ela conclama por uma atuação mais rápida do Estado na implementação de políticas públicas e na educação de novas gerações, alertando que ações como a construção da Casa da Mulher Brasileira continuam paralisadas por falta de iniciativa governamental.

Finalmente, ela reforça a necessidade de fortalecer os serviços de atendimento especializado. Em Manaus, as Delegacias Especializadas em Crimes Contra a Mulher (DECCM) tiveram suas ações aprimoradas, e a Polícia Civil contou com o Núcleo de Combate ao Feminicídio, que garantiu a prisão de todos os suspeitos envolvidos nos oito crimes de feminicídio na capital ao longo de 2025. A Polícia Militar, por sua vez, atua por meio da Ronda Maria da Penha, com estratégias que ajudam a garantir medidas protetivas às vítimas e a presença constante nas ruas, reforçando a segurança das mulheres.