Na véspera do início das reuniões de diálogo tripartite envolvendo Estados Unidos, Ucrânia e Rússia em Abu Dhabi, o Kremlin reiterou sua posição de que as tropas ucranianas devem se retirar do território do Donbass, condição que considera fundamental para uma resolução pacífica do conflito.
Antes das conversas, o presidente russo Vladimir Putin manteve encontros com representantes dos EUA, incluindo Steve Witkoff e Jared Kushner, na capital Moscou.
Além disso, o mandatário ucraniano Volodymyr Zelensky e o presidente americano Donald Trump se reuniram em Davos, na Suíça, em um evento separado. Dmitry Peskov, porta-voz da presidência russa, declarou que a retirada das forças armadas ucranianas da região do Donbass é uma prioridade para encerrar as hostilidades.
Ele destacou que essa condição é de suma importância e que a conversa em Abu Dhabi deverá abordar essa questão. Peskov também evitou entrar em detalhes sobre os tópicos que serão discutidos na reunião, referindo-se à chamada "fórmula de Anchorage", uma proposta que remete ao encontro ocorrido na cúpula de agosto de 2025 entre Putin e Trump na Alaska.
O porta-voz justificou que divulgar informações adicionais seria inoportuno neste momento. Após negociações realizadas na madrugada entre Putin e os representantes de Washington, Yuri Ushakov, assessor de política internacional, destacou a necessidade de resolver a questão territorial, em consonância com o entendimento firmado em Anchorage.
Trump, por sua vez, abandonou a exigência de um cessar-fogo imediato, embora os detalhes relativos ao futuro do Donbass, Kherson e Zaporíjia — territórios anexados unilateralmente por Moscou em 2022 — permaneçam confidenciais.
Segundo Peskov, Putin saiu das negociações com sensação de satisfação, descrevendo o encontro como intenso, responsável e de alta complexidade. Ele salientou que esse tipo de consulta costuma ser exaustivo e que, muitas vezes, passa despercebido o tempo dedicado a ela. O porta-voz também lembrou que Estados Unidos têm aproximadamente 5 bilhões de dólares em ativos russos congelados.
Destacou que uma fração dessa quantia, cerca de 20%, poderia ser destinada à reconstrução da Faixa de Gaza, por meio do Conselho de Paz promovido por Trump. Ainda sugeriu que o restante dos recursos poderia ajudar na reconstrução de áreas ucranianas sob controle russo após o fim do conflito. Quanto às negociações em Abu Dhabi, fontes diplomáticas indicam que a delegação russa será liderada pelo almirante Igor Kostyukov, chefe da Inteligência Militar (GRU). Peskov limitou-se a afirmar que o grupo é composto por representantes do Ministério da Defesa.
Na Ucrânia, Zelensky confirmou que enviará seu principal negociador, Rustem Umerov, além do comandante do Estado-Maior General, Andriy Gnatov, para participar do encontro. Este será o primeiro diálogo direto de alto nível entre representantes de Moscou, Kiev e Washington desde o início da ofensiva em 2022, embora encontros anteriores tenham ocorrido em Istambul, em 2025, focando uniquement na troca de prisioneiros e restos mortais.
O processo de diplomacia itinerante, em que os EUA atuam como mediadores, facilitando diálogos separados entre russos e ucranianos e transmitindo propostas, tem sido o método predominante nas negociações recentes. As conversas presenciais em Abu Dhabi estão previstas para acontecer entre esta sexta-feira e sábado, marcando um momento de potencial avanço na resolução do conflito.